O NAMORO DOS ANJOS

Ela tem os cabelos negros, bem lisos, da mesma cor do seu próprio olhar. E o corpo, ah, o corpo, a textura de pele da cor de canela, que também vejo nesse café derramado sobre folhas brancas do caderno de poemas!

Ela é magra, os seios ainda miúdos, mas redondos no corpo crescido de mulher! Passava na minha calçada com passo tímido, braços cruzados, sem parecer sentir minha presença. Fazia parte do nosso ritual de fingir que não estávamos ali. Nenhum de nós existia; apenas esse longo chove e não molha, enquanto eu precisava dissimular o desejo.

Então chegou fevereiro, dia de Iemanjá, e o nosso namoro engrenou: ela tomou o meu olhar entardecido sob o cântico sereno da sereia. Senti o perfume doce das rosas-vermelhas e o sabor do batom misturado com água salgada. Quando dei por mim, já estava beijando seus lábios por entre as ondas.

Era o nosso amor, o namoro dos anjos no mundo. Éramos felizes sem dinheiro, sem documentos, somente nossa identidade do olhar. Um dia, porém, nosso namoro desmoronou. Ela tomou meu olhar de lua enciumada. Começamos a dormir separados. Chorávamos por nós e por tudo.

Agora olhamos o nosso namoro seguindo mais longe, além do horizonte, sobre as ondas do mar, deixando-nos a saudade profunda e tão-somente sozinhos, muito sozinhos de nós mesmos e do mundo também.

Texto: Juidson Campos