SESSENTA DIAS

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Sessenta dias

Sessenta dias de guerra contra o Irã. Parece muito. Mas não é. É só mais uma guerra.

Li no Twitter. Rolei o feed; tomei café, li de novo. Antes foi Gaza. Lembro das primeiras postagens. Um prédio cedendo. Depois, outro. Novas explosões. Depois, vi um vídeo de uma mãe procurando o filho no meio dos escombros. Girei o celular na mão e fui ver o preço da gasolina.

O Líbano veio depois. Ou junto — nem sei mais. As notícias se misturam. Bombardeios no sul de Beirute. Uma escola bombardeada. Mais de cem crianças mortas. Um hospital foi atingido. Clico na foto, aumento, vejo poeira cinza. É sempre a mesma poeira.

Agora é o Irã. Sessenta dias. Os Estados Unidos autorizaram mais ataques. Israel faz o grosso da força. O noticiário diz “retaliação”. Diz “escalada”. Diz “eixo do mal”. Palavras gastas. Servem para qualquer guerra. Basta trocar o nome do país.

De noite, no jantar, comento com minha mulher. Ela mexe o arroz e pergunta: “Qual delas?”.
Tem razão. São tantas.

Abro o Instagram. Um amigo posta a bandeira de Israel. Outro, a bandeira da Palestina. Uma terceira diz que o Irã tem direito de se defender. Ninguém se fala mais. Só compartilham links. E aquela sensação de virtude embrulha meu estômago.

Também já compartilhei sobre isso. Nem as bandeiras, nem as guerras. Somente perguntas do tipo: Por quê? Qual a razão disso tudo?
Foi só no começo. Hoje, só rolo a tela. Meu dedo cansou.

Gaza ainda está lá. Só não aparece mais com tanta frequência. O algoritmo prefere a novidade. O Irã agora é a novidade. Amanhã será outro lugar. Ou a mesma guerra com outro número de dias.
Cem dias. Duzentos. O aplicativo vai me avisar.

Sessenta dias. E o que fiz? Trabalhei. Dormi. Tive uma discussão besta no trânsito. Comprei pão. Liguei para um amigo. A guerra não entrou pela janela. Entrou pelo Wi-Fi.
Isso me envergonha. Um pouco. Mas a vergonha também cansa.

Os mortos do Irã, do Líbano… têm nome. Os de Gaza, também. Mas meus dedos já não alcançam. Meu país está longe. Minha rua está próxima, só dobrar a esquina. Então desligo meu smartphone, respiro fundo e entro em casa.

Sessenta dias. O silêncio do mundo é tão ensurdecedor. Meu silêncio, pior, constrangedor. Em silêncio, como bolachas com mel e reclamo do calor. Porque abro a geladeira… Porque ainda tenho uma geladeira para abrir.
Sessenta dias. E amanhã, sessenta e um.

O celular vai vibrar. E eu vou ler. Não vou sentir nada. E sentir esse nada vai doer — só o suficiente para escrever outra crônica. Vou seguir vivendo. Como se viver não fosse também uma forma de desistir de olhar.

Fim da tarde. O sol desce manso, como se nada estivesse acontecendo. O cinismo do mundo é esse: o céu continua azul. As andorinhas voltam do mar. E os mortos, esses, fazem uma longa fila invisível esperando a contagem.

Sessenta dias.
Caramba.

O tempo não cura nada. Só empilha dias como quem empilha sacos de areia. No fim, você tem um muro diante de si. Mas o muro também cede.

Sacos de areia e concreto em ruínas

O MESMO CÉU

O MESMO CÉU

Quase ninguém, em sã consciência, olha para o céu com outros olhos. É quase sempre de relance. Com muita pressa. Seja para ver se vem chuva ou se vem sol, ou por qualquer outro motivo que tenha a ver com o nosso mundo mais urgente e necessário.

Não é como estar debaixo das árvores. Imensas. Copadas. Onde, por exemplo, não se sente calor, tampouco frio. E se não há vento, nem brisa, isso também não importa. Somente um leve frescor pelo ar, isso já basta, é suficiente para se sentir em paz consigo próprio.

Na verdade, mesmo, um privilégio, uma graça terrena sentir-se em sintonia com a natureza. Você até escuta a folha seca cair do alto, ecoando de galho em galho… e, nesse mesmo instante, descobre um avião cruzando as nuvens, em silêncio, e nem sequer sente medo.

Mesmo assim, tudo isso é uma lástima inexplicável. Tudo isso é tão triste — uma calamidade, um flagelo. Esse mesmo céu azul, por onde as nuvens passam, é o exato céu que paira sobre os escombros de Gaza.

A ironia beira o insuportável. O avião que aqui risca a imensidão como um pássaro inofensivo, lá ainda desponta como o mensageiro do fim. É o mesmo sol que doura a folha no meu quintal, iluminando a poeira densa das casas desabadas. Falta-nos a grandeza de olhar para cima e entender o mais elementar. Respiramos todos abrigados pelo mesmíssimo teto.

O firmamento não conhece fronteiras. Não desenha mapas no alto. Tampouco escolhe de quem será a nuvem da tarde. Ele simplesmente se estende, infinito e igualitário, enquanto teimamos em fragmentar o universo em nossa volta, acreditando que o azul que nos cobre é exclusividade nossa, alheios ao fato de que a natureza oferece a vastidão a todos, sem distinção.

A verdadeira tragédia não está lá no alto. Está na cegueira de quem rasteja pela terra. Se tivéssemos a decência de contemplar o espaço com a alma desarmada, entenderíamos que o mundo é somente um único quintal, nada mais. Mas não adianta. O homem prefere olhar para baixo, para o chão. Prefere construir para, mais cedo ou mais tarde, tão logo destruir.

Somos seres amaldiçoados? Preferimos cavar trincheiras, fabricar abrigos subterrâneos para suportar o inferno que nós próprios criamos, geramos. Enquanto isso, o céu assiste a tudo, impassível, à nossa própria ruína, à nossa própria tragédia estupidamente desumana…

Será que somos mesmo seres civilizados?


Abaixo, um vídeo sobre Gaza atual:

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