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ELEGIA DO EXISTENCIALISMO
Minha fé não é tanta
Se minha fosse tanta
Algo de mim se perderia
Como se perde a vida na morte
Sem saber do mistério
Dessa náusea que me consome
Donde tudo termina sem começar.
Sim, minha fé não é tanta
Pois se fosse tanta fé
O mistério não seria o meio
Não haveria início
Nem a necessidade do fim
Porque não existiria o nada
Nem o nada de mim.
Texto: Juidson Campos
ENQUANTO ELA NÃO CHEGAR
Era noite. Céu estrelado. O vento breve ficou mais longo. Soprou as árvores da minha janela, o gemido de mulher que o fez imaginar ela vindo até ele. Tinha o olhar brilhante, pele à flor da pele arrepiada em prazer. Vinha com este olhar irresistível onde, lentamente, nessa prosa de estrada passando dentro dele, constatava cena surpreendente tomando conta da imaginação.
O vento continuava lhe arrebatando os sentidos, como se cada folha desprendida dos ramos fosse a parte minúscula do seu ser. E com que desejo reprimido, foi arrancando as folhas de dentro, uma a uma, excitado, aquela ereção de latejo sob o fecho do jeans...
De sobressalto abri as pálpebras de medo. Temia imaginar o que tentava resistir, ela vindo seminua no assento de trás, entre beijos e afagos, as mãos ora subindo, ora descendo, buscando o formato liso dos seios, o púbis desnudado. Os lábios na boca, feito favo de mel, e já por cima… mas por cima de quem estariam os gemidos banhados de fogo? Eu não sei, mas gemia o gemido dos meus sentidos em suspiros, murmúrios, sussurros.
E nesse tremor da imaginação, ouvindo o vento soprar, ela vinha num sonho de folha solta, breve suspiro, enquanto ela não chegar. As folhas das árvores continuavam caindo sob o luar, o vento brando de brisa no fim. E agora, será que ela vem? Sem ela, sou folha caída, nem vento, nem brisa, ninguém.
Texto: Juidson Campos
O NAMORO DOS ANJOS
Ela tem os cabelos negros, bem lisos, da mesma cor do seu próprio olhar. E o corpo, ah, o corpo, a textura de pele da cor de canela, que também vejo nesse café derramado sobre folhas brancas do caderno de poemas!
Ela é magra, os seios ainda miúdos, mas redondos no corpo crescido de mulher! Passava na minha calçada com passo tímido, braços cruzados, sem parecer sentir minha presença. Fazia parte do nosso ritual de fingir que não estávamos ali. Nenhum de nós existia; apenas esse longo chove e não molha, enquanto eu precisava dissimular o desejo.
Então chegou fevereiro, dia de Iemanjá, e o nosso namoro engrenou: ela tomou o meu olhar entardecido sob o cântico sereno da sereia. Senti o perfume doce das rosas-vermelhas e o sabor do batom misturado com água salgada. Quando dei por mim, já estava beijando seus lábios por entre as ondas.
Era o nosso amor, o namoro dos anjos no mundo. Éramos felizes sem dinheiro, sem documentos, somente nossa identidade do olhar. Um dia, porém, nosso namoro desmoronou. Ela tomou meu olhar de lua enciumada. Começamos a dormir separados. Chorávamos por nós e por tudo.
Agora olhamos o nosso namoro seguindo mais longe, além do horizonte, sobre as ondas do mar, deixando-nos a saudade profunda e tão-somente sozinhos, muito sozinhos de nós mesmos e do mundo também.
Texto: Juidson Campos
FILOSOFIA AO ANOITECER
De qual maneira saber de onde vim e para onde vou? O céu, as estrelas, toda essa imensidão sem começo nem fim parece uma sorte do acaso a dizer-me dos universos de seres e órbitas existentes aqui e acolá.
Vivemos e morremos presos ao chão, sem saber a razão de existir. Que me resta acreditar se a minha fé não é tanta? Constato a existência e percebo que o mistério da morte é também a náusea que me consome até o fim.
Se nem sei onde tudo começa e termina, como saber esse mistério? Eis minha dúvida: talvez não exista o nada, apenas, tão-somente, isso: o óbvio de continuar sem nada saber!
Texto: Juidson Campos