Preciso caminhar um pouco. Quase não caminho ultimamente. Quem sabe subo a ladeira da minha rua? Não. Melhor pegar a descida. Detesto subir quando recém me levanto da cama. Aliás, para descer, todo santo ajuda. É que continuo me recuperando da cirurgia. Tumor no intestino. Tenho passado muito tempo deitado. O corpo fica mais mole do que o colchão. O livro começa a pesar, cai das mãos. Perco a página e o assunto. É hora de caminhar.
Agora estou diante da porta, indeciso. Pensando bem, melhor eu subir a rua. Se eu descer, ficarei cansado subindo depois. Não quero ajuda de santo nenhum. Droga, parece que vem chuva. O médico disse para não molhar o curativo. O vizinho ligou o rádio. Está trocando as estações. Sinto o cheiro de chuva chegando.
O rádio pula de estação em estação. Música sertaneja. Milonga, que é bom, nada; nem parece que somos mais gaúchos. Agora notícia de assalto. Religião. Não sei se padre ou pastor, o vizinho está de dedos inquietos. Mais sertanejo de novo. Outra estação, o locutor diz: “e a verdade vos libertará…” Espera, não é pastor, não é padre. Meu Deus, é o diabo do presidente!
— Droga, subirei a rua sem guarda-chuva mesmo!
Texto: Juidson Campos
Arte imagem: Lúcia Hiratsuka