RÉQUIEM

Nós, morre, sim.

Ela, a morte, é singularmente plural.

Sim, mais de uma vez

Perdem-se as contas de quantas vezes

Se morre em cada amanhecer.

A existência nem liga, esquece de nós:

Eu de você, você de mim.

Sim, nós morremos com os dias.

Não adianta lamentos, suspiros.

A vida não sabe mais mentir como antes,

Quando a verdade da morte parecia até nunca existir.

Texto: Juidson Campos

UM CARA DO MEU TEMPO

Desenho à caneta

Desenho à caneta

Sou antigo. Século XX. Sob a escala do tempo científico, sou um mero viajante recém-nascido, há cerca de 200 mil anos, neste planeta de quase cinco bilhões. Trago a nostalgia na bagagem e um pouco de insatisfação. Sou do tempo do LP, da fita cassete e de dançar agarradinho. Do tempo de ler livros em paz, horas a fio, e de buscar tesouros em sebos, mesmo cheios de mofo e traça.

Escrevia cartas longas com selos de todos os tipos. Dava flores sem que fosse "coisa de besta", apenas um agrado perfumado. Sou do tempo do caderninho de fiado no armazém e da Sessão da Tarde com bolinhos de chuva. Do portão entreaberto e de conversar no muro baixo com os vizinhos sob a lua cheia. Sou do tempo de respeitar a liberdade, mesmo com militares tiranos em nossos calcanhares.

Ouvi Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano e Belchior — nossas tábuas salva-vidas líricas. Não confundia o indigenista Vilas Boas com o erudito Villa-Lobos. Vivi a perda da democracia pelo AI-5, o tempo em que se matava antes para perguntar depois. Votei no sindicalista do ABC. Acreditava na minha verdade e na minha razão como Norte.

Falar menos, escutar mais. Não por temor, mas por educação. Mesmo que a maioria fosse da pá virada, era preciso continuar a caminhada. Cada ser em seu tempo, cada memória em seu lugar.

Texto: Juidson Campos