O MESMO CÉU

O MESMO CÉU

Quase ninguém, em sã consciência, olha para o céu com outros olhos. É quase sempre de relance. Com muita pressa. Seja para ver se vem chuva ou se vem sol, ou por qualquer outro motivo que tenha a ver com o nosso mundo mais urgente e necessário.

Não é como estar debaixo das árvores. Imensas. Copadas. Onde, por exemplo, não se sente calor, tampouco frio. E se não há vento, nem brisa, isso também não importa. Somente um leve frescor pelo ar, isso já basta, é suficiente para se sentir em paz consigo próprio.

Na verdade, mesmo, um privilégio, uma graça terrena sentir-se em sintonia com a natureza. Você até escuta a folha seca cair do alto, ecoando de galho em galho… e, nesse mesmo instante, descobre um avião cruzando as nuvens, em silêncio, e nem sequer sente medo.

Mesmo assim, tudo isso é uma lástima inexplicável. Tudo isso é tão triste — uma calamidade, um flagelo. Esse mesmo céu azul, por onde as nuvens passam, é o exato céu que paira sobre os escombros de Gaza.

A ironia beira o insuportável. O avião que aqui risca a imensidão como um pássaro inofensivo, lá ainda desponta como o mensageiro do fim. É o mesmo sol que doura a folha no meu quintal, iluminando a poeira densa das casas desabadas. Falta-nos a grandeza de olhar para cima e entender o mais elementar. Respiramos todos abrigados pelo mesmíssimo teto.

O firmamento não conhece fronteiras. Não desenha mapas no alto. Tampouco escolhe de quem será a nuvem da tarde. Ele simplesmente se estende, infinito e igualitário, enquanto teimamos em fragmentar o universo em nossa volta, acreditando que o azul que nos cobre é exclusividade nossa, alheios ao fato de que a natureza oferece a vastidão a todos, sem distinção.

A verdadeira tragédia não está lá no alto. Está na cegueira de quem rasteja pela terra. Se tivéssemos a decência de contemplar o espaço com a alma desarmada, entenderíamos que o mundo é somente um único quintal, nada mais. Mas não adianta. O homem prefere olhar para baixo, para o chão. Prefere construir para, mais cedo ou mais tarde, tão logo destruir.

Somos seres amaldiçoados? Preferimos cavar trincheiras, fabricar abrigos subterrâneos para suportar o inferno que nós próprios criamos, geramos. Enquanto isso, o céu assiste a tudo, impassível, à nossa própria ruína, à nossa própria tragédia estupidamente desumana…

Será que somos mesmo seres civilizados?


Abaixo, um vídeo sobre Gaza atual:

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O COLAPSO

O COLAPSO

O que acontece no mundo beira o macabro. Acabou a ilusão da guerra distante, restrita a um único CEP. O controle ruiu. O cenário virou uma panela de pressão global engolindo Irã, Israel, Estados Unidos e o que mais estiver no caminho.

Tudo acelerou após o ataque aéreo contra mil alvos no Irã. A meta era paralisar o país. O Irã não cedeu. Em vez do confronto direto, respondeu com tempestades de mísseis balísticos e drones. A tática é a exaustão financeira: vencer pelo cansaço do bolso inimigo, obrigando o gasto de fortunas para interceptar cada ataque até esgotar as defesas aéreas.

O fogo se alastrou. Mísseis sobre Israel, o Líbano arrastado para o caos e as rotas navais do Golfo Pérsico bloqueadas. Uma teia de cordas grossas onde todos se enforcam.

Os Estados Unidos entraram com força bruta, colhendo apenas protestos e rachaduras políticas internas. A Europa recuou. Assombrada pelo espectro da crise energética e migratória, abraçou a diplomacia. A vitrine da união ocidental trincou. Washington afundou num buraco negro geopolítico: pensam que entrar numa guerra é apenas apertar um botão, mas sair dela é quase impossível.

O que embrulha o estômago, no entanto, é a carne civil. Já não se disputa território; disputa-se o fôlego do dia seguinte. Casas, hospitais e escolas viraram escombros. Água e luz são luxos de um passado recente.

Há crianças crescendo sob o uivo das sirenes, aprendendo que o trauma é a regra do mundo. O futuro cobrará a conta. Uma geração inteira tem a mente mutilada hoje.

No fim, o lucro é zero. Resta apenas o custo incalculável da incerteza. O que sangra no tabuleiro não é o poder militar, mas o próprio pilar que sustenta o que resta de ordem no mundo. A única dúvida é se ainda existe alguém lúcido o bastante para pisar no freio antes que a vingança consuma o que sobrou.

Esta crônica é exclusiva do blog. Para mergulhar em outras histórias, vá ao menu e visite a página [RESUMOS/ÁUDIO/LIVROS].

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O PREÇO DO FOGO E O PESO DO SILÊNCIO

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O Preço do Fogo

E o Peso do Silêncio


Enquanto o mundo arde, o fogo queima mais além, nós assistimos ao incêndio pela tela fria do smartphone ou da TV. Estamos apáticos, sentimos uma preguiça de não pensar para não fazer doer ainda mais. Do conforto anestesiante de nossos lares, então consumimos essa loucura, essa tragédia geopolítica, sentindo uma frustração estéril, uma indignação de sofá que morre antes mesmo de cruzar a porta de casa.

Mas, ainda assim, este alerta precisa ecoar, precisa insistir, nem que tenha que reverberar como um soco no estômago de nossa inércia: não podemos mais ser a plateia muda assistindo o nosso próprio fim.

Há uma ironia totalmente macabra em todo esse tabuleiro global mais atual: menos de um punhado de pessoas com mentalidade velhaca e criminosa está nos ferrando silenciosamente por trás. É uma verdadeira “quadrilha” que sorrateiramente chantageia as rédeas da política sem ninguém notar. E pior, decidiu arriscar: risca um palito de fósforo sob uma nuvem de gás inflamável.

Mas afinal, quem irá se queimar?

Enquanto move a chama, sente-se protegido pela distância, não se importa com o preço da insana estupidez, sabe que será pago de imediato com a vida de crianças e civis inocentes que tombam sob o fogo. Mas a fatura dessa loucura não respeita fronteiras, pode ter certeza disso. O alerta é claro e universal: as classes trabalhadoras de todo o planeta arcarão com as consequências desse jogo insano de poder. Sim, isso mesmo, pode acreditar: somos nós a engrenagem que move o mundo, que continuamos, no fim das contas, a financiar com suor e empobrecimento, as bombas desses tiranos.

É exatamente por isso que o vazio de nossas avenidas é tão ensurdecedor e vastamente decepcionante…

Onde estão os milhões marchando? Sim! Onde está o levante popular exigindo o fim dessa insanidade?

O conformismo revela nossa cumplicidade. O alerta bate em nossa porta, exige nossa ruptura: parem de apenas assistir à mídia, recusem o papel de vítimas, tomem as ruas ou qualquer outro espaço de mobilização! É um dever moral dizer um sonoro “NÃO” a esse grupo criminoso que empurra a humanidade para o abismo!

Não nos enganemos com a ilusão de que este é apenas mais um conflito regional passageiro! A gravidade do nosso tempo está batendo em nossa porta e ninguém parece ouvir ou, quem sabe, espera alguém ir lá abrir…

Mas quem?

Estamos atravessando um dos momentos mais difíceis e críticos da história da humanidade, a turbulenta transição de uma ordem mundial para outra. A encruzilhada é impiedosa, não podemos nos afastar da TV! Mas perceba: se continuarmos de braços cruzados, se continuarmos nos recusando a nos envolver de forma mais sincera e ativa, o futuro cobrará seu tributo com guerras ainda maiores e cada vez mais sangrentas.

O alerta grita na porta, o recado foi dado e o relógio da história não perdoa a omissão. Ou a sociedade civil global se levanta para arrancar os fósforos das mãos dessa quadrilha ou amanhã todos nós, sem exceção, seremos consumidos pelo fogo que nos recusamos a apagar.


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O QUE RESISTE

O QUE RESISTE


A guerra chega devagar, como um homem velho subindo uma escada. Primeiro um pé, depois o outro. Depois, quando você menos espera, ela está ali, sentada na sua sala, contando mentiras sobre honra.

Estive pensando nisso esta manhã, enquanto limpava meus óculos. As notícias chegam pelo rádio, pelas redes sociais, mas as notícias nunca contam a verdade. Dizem que o Irã está fabricando armas nucleares. Dizem ser preciso agir com a mesma voz com que disseram sobre o Iraque, sobre o Afeganistão, sobre tantos lugares que já não existem mais como existiam.

Estamos falando de uma civilização cujos ancestrais ainda viviam em cavernas. E isso não é arrogância, é apenas um fato. Os norte-americanos sequestraram o presidente na Venezuela. Disseram ser por causa das drogas. Sabemos que não é isso. É pelo petróleo que brilha na superfície da água como sangue de peixe.

Um homem pode justificar qualquer coisa se tiver uma boa história. Na guerra, aliás, cada um com sua própria justificativa. Não importa se eles têm famílias, têm receios, têm olhos que nos olham enquanto perecem. No final, a justificativa não importa. O que importa é que eles estarão mortos e eu estou aqui, escrevendo sobre isso.

O petróleo é apenas petróleo. Queima, move máquinas, suja as mãos. Mas os homens matam por ele como matam por mulheres ou por terras há mais de três mil anos. Nada muda. Apenas as armas ficam mais eficientes.

No Irã, as crianças ainda devem estar brincando nas ruas. Os mercados ainda devem estar cheios de especiarias e tecidos coloridos. Os velhos ainda devem se sentar à sombra das mesquitas azuis, contando histórias sobre Alexandre e sobre os árabes e sobre os mongóis que vieram e foram embora. Porque no Oriente Médio os impérios vêm e vão como as marés, mas o povo fica.

Agora virão os bombardeios inteligentes, as munições guiadas por precisão, os comunicados oficiais. Chamarão de operação, de intervenção, de defesa preventiva. Mas no fundo é sempre a mesma coisa: homens com poder enviando homens sem poder para matar outros homens que também não têm poder.

E quando tudo acabar, quando o último poço estiver seco e a última bomba tiver caído, o que restará? Os poemas persas ainda existirão. As mesquitas ainda estarão de pé, talvez. E os velhos continuarão sentados à sombra, contando sobre o tempo em que os americanos vieram, com suas justificativas e suas bombas, e depois foram embora.

Porque, no fim, a única coisa que realmente importa é o que resiste. O petróleo acaba. As justificativas também. Mas um povo antigo, milenar, que já viu impérios nascerem e morrerem, esse continuará.


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O VELHO, O MAR E A ESTUPIDEZ DOS HOMENS

Ilustração do Velho e o Mar
Imagem Ilustração Gemini

O Velho, o Mar e a Estupidez dos Homens

Ele era um homem que sabia que nenhum outro escritor americano jamais teve sua estatura ou influência, tanto literária quanto cultural, mas sabia também que, sem aquela ilha, ele não seria quem foi. Ernest Hemingway olhava para trás, para Cuba, o lugar onde viveu mais da metade de sua vida e onde escreveu muitas de suas obras mais significativas, sentindo a ressaca de uma saudade profunda.

Ele lembrava-se de ter dito uma vez: “Em Cuba, encontrei o lugar perfeito para escrever”; não pelo rum, como pensam os turistas que imaginam o gigante de barba grisalha nos bares, mas pela atração magnética do mar e da pesca magnífica que o fez retornar em 1932. Ele via-se novamente no convés do Pilar, ou alugando o Anita do contrabandista Josie Russell, aprendendo que um homem não deve transportar nada "que possa falar". Aquelas águas do Golfo, onde ele caçava submarinos nazistas como se fossem marlins metálicos, eram o seu verdadeiro lar.

Na Finca Vigía, comprada com o dinheiro de Por Quem os Sinos Dobram, ele não estava apenas escrevendo; ele estava vivendo a essência da vida. Ele via a torre branca que Mary construiu para ele — quieta demais para escrever, na verdade — e sentia o cheiro dos livros na biblioteca, onde fazia anotações nas margens sobre o tempo e a pesca.

Mas agora, ao observar o horizonte político, a nostalgia do velho escritor transformava-se em uma fúria silenciosa. Ele lembrava-se bem do início daquele embargo liderado pelos EUA, uma barreira fria que já durava 40 anos na época do documentário.

Se ele pudesse ver a estupidez dos tempos atuais, veria que a crueldade não mudou, apenas os nomes. Ver um líder como Trump bloquear a exportação de petróleo para a ilha, sufocando a energia de um povo que já sofre tanto, seria para ele a repetição de um erro histórico grotesco. Ele, que dedicou sua medalha do Nobel ao povo cubano e à Virgem do Cobre, veria nessa asfixia econômica a semente de mais um genocídio, uma indiferença à vida humana tão brutal quanto a que devasta Gaza. É a mesma tática de cercar, esfomear e esperar que a dignidade morra antes do corpo.

Retornando às suas memórias documentadas, ele sabia que a política sempre tentou manchar a pesca. Ele ficou terrivelmente nervoso no final da vida por ser rotulado como comunista, sabendo que J. Edgar Hoover mantinha arquivos sobre ele. Ele foi cauteloso com a revolução de Fidel no início, tentando cobrir suas bases, embora pudesse ter simpatizado com a mudança de regime. A ironia não lhe escapava: o próprio Castro preservou sua casa e memória porque ‘Por Quem os Sinos Dobram’ ensinou táticas de guerrilha para vencer exércitos maiores.

No fim, o que importava não eram os governos, mas o povo de Cojímar. Aqueles pescadores, seus “heróis”, que doaram as hélices de bronze de seus barcos para fundir um busto em sua homenagem após sua morte. Ele partiu em 1960 para nunca mais voltar à “casa do seu coração”, deixando para trás seus livros, seus troféus e um povo que, apesar dos bloqueios e da estupidez dos políticos do norte, insistia em manter seu legado vivo.

Retrato de Ernest Hemingway
Ernest Hemingway

Ernest Hemingway (1899-1961) foi um influente escritor norte-americano, vencedor do Nobel de Literatura (1954) e do Pulitzer (1953).

Principais Obras:

  • O Velho e o Mar (1952) — Novela que garantiu o Pulitzer e impulsionou o Nobel.
  • Por Quem os Sinos Dobram (1940) — Baseado em suas vivências na Guerra Civil Espanhola.
  • O Adeus às Armas (1929) — Romance sobre a Primeira Guerra Mundial.
  • O Sol Também Levanta (1926) — Obra marcante da “Geração Perdida”.
  • Paris é uma Festa (1964) — Memórias póstumas sobre sua vida em Paris.

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MURROS EM PONTA DE FACA

Murros em Ponta de Faca

Os Estados Unidos vivem uma crise que não é apenas política, mas humana. A chegada de agentes federais a Minnesota, sem convite do governador, abriu uma ferida que expôs a fragilidade do federalismo e a incoerência de um país construído por imigrantes, mas que agora tenta negar suas próprias raízes.

Famílias foram separadas. Pais deportados, filhos cidadãos deixados para trás, obrigados a viver em terras que não conhecem. Como se não bastasse, o histórico conflito racial continua a marcar a vida dos cidadãos negros, ampliando a sensação de exclusão e perseguição.

O paradoxo é evidente: o próprio presidente que impulsionou essas medidas é descendente de imigrantes. Se seus antepassados tivessem sido tratados com a mesma dureza, talvez a história fosse outra.

E é nesse cenário que lembramos nomes como George Floyd, Renee e Pettri. Suas mortes não podem cair no esquecimento. Elas são o lembrete de que políticas autoritárias e violência institucional não apenas dividem a nação, mas ceifam vidas.

Que suas histórias sirvam de alerta para que os Estados Unidos não continuem a dar murros em ponta de faca, ferindo a si mesmos e comprometendo o futuro de todos.

Ilustração Copilot
Ilustração Copilot
OBS. Lembrem-se de que dezenas de imigrantes foram mortos sob custódia do governo Trump.

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O ESPELHO ESQUECIDO DA TRANSITORIEDADE.

O Espelho Esquecido da Transitoriedade.

O mundo é um ponto azul. Frágil. Passageiro. Todos nascem, caminham, partem. É simples. Mas o poder esquece. Age como se fosse dono da terra. Ergue muros contra quem busca apenas sobreviver.

O “sonho americano” virou pesadelo. Asfalto. Sangue. René Nicole, uma jovem de 37 anos, morreu em Minnesota. Morta por agentes de imigração. O governo a chamou de “terrorista”. Não era. Era só uma mulher. E mãe. Mãe de três crianças. A palavra “terrorista” serviu para encobrir o crime. Para esmagar a confiança. Para espalhar ódio, revolta.

Menny Chaves também é vítima disso tudo. Vítima do medo. Tem só 16 anos. Ele já não sonha, preocupa-se. Só deseja que os pais voltem do trabalho vivos. Ele fala de um presidente sem empatia. Um homem que trata pessoas como cães. A polícia segue a ordem. Não protege. Ameaça. Mata a tiros.

O tirano esquece que também é passageiro. Persegue o imigrante. Persegue a própria história. Fronteiras são cicatrizes. Elas não param a vida.

Um jovem de Oregon disse: viver assim é morar em casa de vidro. O dono atira pedras nos vizinhos. Não percebe. O último estilhaço vai destruir o próprio teto.

Algo de muito errado está se passando com ele… não é só com a gente, com o mundo. Ninguém está vendo isso?

Fonte / Referência:

Assista: Mídia NINJA / UOL

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O BANQUETE SOBRE O ABISMO

O Banquete Sobre o Abismo

Tente não se perder no brilho das telas de cinema. Você cresceu acreditando que o mundo é um cenário de Hollywood, onde heróis invencíveis salvam o dia antes dos créditos subirem.

No entanto, a realidade é uma roteirista muito mais cruel e menos afeita a finais felizes. Aquela potência militar insuperável que povoa seus sonhos de consumo foi, na verdade, convidada — isso para dizer o mínimo — a se retirar do Iraque, do Afeganistão e da Líbia, deixando o rastro do amargo regresso de seus próprios filhos do solo do Vietnã.

É curioso observar como vocês, e muitos de seus pares aqui no Brasil, olham para o Norte como se avistassem a Nova Jerusalém.

A verdade, contudo, é que os Estados Unidos estão mergulhados em uma crise sem precedentes, tentando escapar desesperadamente de uma arapuca que eles mesmos montaram: um mundo de fantasia sustentado por falsas comunicações garbosas.

Enquanto você admira o brilho do dólar, saiba que esse país é um dos mais violentos do globo, ostentando quase cinco vezes mais encarcerados per capita do que a China e convivendo com o horror quase diário de possíveis ataques armados em escolas.

O capitalismo selvagem deles produz uma vida fútil e desprovida de propósito, onde quarenta milhões de pessoas buscam refúgio em drogas e outros cinquenta milhões não sabem se terão o que comer amanhã.

É uma ironia trágica, não acha? Um país com um PIB de 28 trilhões de dólares — catorze vezes maior que o brasileiro — que mantém sua população jogada às traças, sem o básico acesso à saúde.

E no centro desse picadeiro, temos figuras que usam a comunicação para empilhar baboseiras e desviar a atenção de governos que fracassam sistematicamente. Promessas de invasões e fortunas multiplicadas em esquemas de criptomoedas e valores fictícios na bolsa são somente castelos de areia.

São como aquelas esculturas à beira do mar: basta a primeira chuva da realidade para que tudo se desfaça em minutos.

Para entender esse cenário, pense na imagem de um banquete luxuoso servido sobre um tapete que esconde um abismo: os convidados elogiam a prataria e o brilho dos lustres, ignorando que o chão sob seus pés está cedendo, e que o anfitrião, enquanto sorri para as câmeras, já está vendendo as cadeiras onde todos se sentam.

Não se deixe enganar pela estética do poder.

A ganância e a falta de empatia não são defeitos de percurso, são a própria essência de um sistema que idolatra o veneno.

Há quem trate bem os 'ovos das serpentes', esperando gratidão; só não se surpreenda se uma delas o picar. Compreenda: não é por ódio, mas porque é de sua natureza, a mesma que alimenta o fascismo.


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O BLUES DO LEVIATÃ NORTE-AMERICANO

O Blues do Leviatã Norte-Americano.

Há uma América que pulsa com uma beleza feroz e inegável. É a América do jazz improvisado em porões enfumaçados, onde o trompete chora a dor e a esperança de um povo. É a terra da estrada aberta descrita por Kerouac, da coragem solitária nos ringues de boxe, da prosa limpa de Faulkner e da engenharia que ergueu arranha-céus que tocam o divino. Existe uma vitalidade na cultura norte-americana, uma crença na liberdade individual e na reinvenção do eu que seduz o mundo. É um lugar onde a ideia de “possibilidade” é o oxigênio que se respira.

No entanto, há um paradoxo terrível quando essa nação, que forjou sua identidade na luta contra a tirania colonial, decide projetar sua sombra sobre o continente do sul.

Caracas, 3 de janeiro de 2026. A madrugada não chegou devagar; ela foi imposta. Primeiro, a morte da luz. Um apagão cibernético, frio e calculado, transformou a capital em um abismo escuro. Os radares, cegos. O silêncio eletrônico, absoluto.

Então, veio o som. Não era música. Era a percussão mecânica de aeronaves rasgando o céu tropical. A “Operação Determinação Absoluta”. Um nome limpo para um ato sujo.

Os Night Stalkers desceram. São profissionais, homens feitos de aço e ordens, movendo-se com a precisão de cirurgiões num açougue. O alvo não era um exército, mas uma casa. Forte Tiuna. Nicolás Maduro e Cilia Flores não foram presos, foram sequestrados; ou, melhor (ou pior?), foram extraídos. Sim. Como se arranca um dente inflamado, sem perguntar à boca se ela concorda com a dor.

Mais de cinquenta homens morreram. Eles caíram no escuro, defendendo um portão, uma ideia ou talvez o solo onde nasceram. Para a máquina de guerra que desceu do norte, eles eram apenas estatística, danos colaterais na planilha do Pentágono.

A justificativa veio embalada no celofane retórico de Washington: “narcoterrorismo”. Mas quem conhece o cheiro da pólvora e da política sabe que o buraco é mais embaixo. É o petróleo. O sangue negro da terra. Donald Trump, invocando a sua “Doutrina Don-Roll” — uma Monroe com anabolizantes —, decidiu que o quintal precisava de um novo síndico. Não importa a soberania, não importa o direito internacional. Para ele, tudo isso é balela.

É a política do condomínio global reduzida à lei do mais forte: se não gosto de como você arruma sua sala, eu chuto a sua porta, mato seus cães e te levo acorrentado para Nova York.

Eles levaram o homem, mas deixaram o problema. Em Caracas, o vácuo não foi preenchido pelo pânico, mas por uma rigidez militar. Delcy, Diosdado, Padrino. A estrutura permaneceu. O chavismo cerrou fileiras. Não houve a traição em massa que os analistas de Langley prometeram em seus relatórios de ar-condicionado.

O mundo assiste, atônito. A Rússia e a China, gigantes com pés de barro logísticos, somente observam. O Brasil, vizinho gigante e complexo, sentiu o tremor. O Itamaraty, saindo de sua letargia, condenou o ato. Reconheceram Delcy, não porque gostem dela, mas porque a alternativa de aceitar que fuzileiros estrangeiros possam sequestrar presidentes na América do Sul é um pesadelo geopolítico inaceitável.

No fim, a operação foi um sucesso tático e um desastre moral. Os Estados Unidos, a terra de muitos escritores que nos ensinaram que a coragem é a graça sob pressão, mostraram ao mundo uma face diferente naquela madrugada: a arrogância sob pretexto. Eles provaram que podem apagar as luzes de uma nação inteira, mas ainda não aprenderam a iluminar a própria contradição de ser uma república fundada na liberdade que, volta e meia, é viciada em esmagar a liberdade alheia.


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