6 de ago. de 2026

Amnésia Coletiva

Amnésia Coletiva

Oitenta e um anos após a maior atrocidade já presenciada, a humanidade flerta com o perigoso hábito do esquecimento.

O Eco do Silêncio: Memória contra o Apocalipse Nuclear

O texto reflete sobre o perigo da amnésia coletiva em relação aos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, ocorridos há mais de oito décadas. O autor destaca que a mortalidade instantânea causada por essas armas nucleares foi um evento sem precedentes na história, superando qualquer outra tragédia humana. Existe uma preocupação central de que, com o falecimento dos últimos sobreviventes, o mundo perca a memória visual e emocional desses horrores. O conteúdo questiona se o esquecimento das atrocidades passadas poderia facilitar a eclosão de um novo conflito global devastador. Assim, a obra serve como um alerta sobre a importância de manter viva a consciência histórica para evitar a repetição de erros catastróficos. Dessa forma, a preservação da memória é apresentada como uma ferramenta essencial para a sobrevivência da humanidade.


Hoje, continuar vivo parece ser sempre arriscado. Isso porque, lentamente, o mundo se esquece do que aconteceu há mais de oitenta anos. Para ser exato, há oitenta e um anos, faltando duas décadas para cem anos de lembrança.

Talvez pareça muito tempo — ainda mais àqueles que nasceram depois —, mas, se pararmos para pensar um minuto, ainda hoje restam vivos menos de cem mil sobreviventes; todos eles, aliás, com idade já bem avançada.

Quanto aos outros, as vítimas somadas da população de Hiroshima e Nagasaki, mais de duzentas mil pessoas morreram instantaneamente… morreram no mesmo minuto, fora aqueles que morreram horas ou dias depois.

Talvez você pense que, ainda hoje, milhões de pessoas morram vítimas de tragédias naturais, de epidemias, de genocídios, de guerras, mas uma mortalidade assim, pode ter certeza, nunca ocorreu em toda a história da humanidade.

Como consolo, porém, dizem que o tempo sempre ajuda a esquecer as tragédias, os conflitos armados, as feridas já cicatrizadas, os traumas vagarosamente superados… Mas será que, um dia, a humanidade vai se esquecer desse tamanho horror, dessa tamanha atrocidade?

Porque, se pararmos para pensar mais outro minutinho, a ‘Segunda Guerra Mundial’ é a continuação da ‘Primeira’! Partindo-se dessa premissa, então, caso haja a ‘Terceira’, será que, ainda assim, a humanidade continuará se esquecendo?


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11 de jul. de 2026

DOIS MINEIROS PELO MUNDO

Fred e Laryssa - Vou Sem Volta

✈️🌍 Dois mineiros pelo mundo

Há quem diga que viajar é colecionar horizontes. Fred e Laryssa, jovens de Patos de Minas (MG), parecem confirmar essa máxima com cada vídeo que compartilham no canal Vou Sem Volta. De mochila leve (às vezes pesada) e olhar curioso, eles transformam o cotidiano em narrativa, e o distante em próximo.

O encanto está na simplicidade: não há artifícios, apenas a naturalidade de quem observa e relata. Seja atravessando mercados asiáticos ou caminhando por ruas europeias, o casal nos convida a enxergar o mundo com olhos desarmados, atentos ao detalhe que escapa na pressa.

Segui-los é mais do que acompanhar destinos; é aprender a viajar também dentro de si, reconhecendo que cada encontro, cada cenário, cada história, é um pedaço de humanidade compartilhada.

📌 Se você aprecia relatos genuínos, daqueles que não se preocupam em parecer perfeitos, mas em serem verdadeiros, vale a pena embarcar com Fred e Laryssa. O Vou Sem Volta não é apenas um canal de viagens — é um convite a se deixar levar pela beleza do inesperado.


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6 de jul. de 2026

Hemingway e a Queda do Punho Norte-Americano

Vídeo de Danny Haiphong que inspirou esta reflexão.

Eu estava navegando na internet, pesquisando no YouTube, quando assisti a este vídeo dublado de Danny Haiphong. Ele é um jornalista, um escritor norte-americano falando de guerras, de presidentes, de homens ricos que mandam no destino dos outros.

A princípio, não entendi muito bem. Nunca fui bom em política. Mas o escutei falar e, de repente, pareceu que o mundo é uma mesa de pôquer onde só alguns jogam com cartas marcadas — porque o mundo tem elites, guarda segredos e há países que se enfrentam como touros em uma arena.

Então pensei em Hemingway, que escrevia sobre touros e sobre aqueles homens que bebiam e esperavam a morte, sobre guerras que não faziam sentido. E eu, ainda muito jovem na década de 70, só queria entender por que tudo parecia tão pesado, tão angustiante, embora suas histórias fossem mais interessantes e comoventes.

Naquela época, quando eu saía na rua, até parecia que o vento soprava como em Havana, seco e salgado. Eu também lembrava de Paris, mesmo sem nunca ter ido lá. Imaginava Hemingway sentado em um café, escrevendo com frases curtas, sem adorno. Talvez fosse assim que se deveria falar da política: sem adorno, sem mentira. Só o que é.

Danny Haiphong, neste vídeo, fala de poder, de manipulação, de verdades escondidas. Estranho... eu pensava que o mundo fosse como uma luta de boxe em Cuba: dois homens no ringue, uma briga mano a mano. Não é verdade; quero dizer, pelo menos agora, porque pelo visto quem decide o resultado é quem está fora, quem segura o dinheiro. E nós, uns idiota que assistimos, ficamos somente com a poeira, com o suor que não é nem mesmo nosso.

Como disse, não sei de política, muito menos de geopolítica, mas sei que há homens que mandam e há povos que sofrem. Sei que a verdade nunca vem inteira. Sei que o mundo é duro, como dizia Hemingway. Bem, mesmo sem entender muito bem o que Danny diz, agora carrego a preocupação como Hemingway carregava uma garrafa de rum: pesada, amarga, mas necessária... Caramba, quanta saudade ele devia sentir de Cuba!

Talvez escrever seja a única forma de lutar. Escrever simples, sim, como ele escrevia. Não entendo tudo, mas preciso tentar assim mesmo. Porque, afinal de contas, o mundo é grande, e eu sou pequeno. Mas, ainda assim, quero olhar para ele sem baixar os olhos com medo.

Imagine. Agora entendi o vídeo do jovem Danny. É um manifesto, um monólogo. E tudo isso por causa do dia 4 de julho, que foi anteontem, quando Trump disse que os Estados Unidos são excepcionais. Disse, inclusive, que são o melhor país do mundo!

Não é verdade. O império americano está em declínio. É odiado. As elites de poder causam sofrimento em nome desta hegemonia. No Irã, milhões choram seu líder assassinado. Milhares morreram em uma guerra de 37 dias iniciada pelos Estados Unidos e Israel. Crianças foram mortas em ataques. Israel ataca o Líbano com apoio americano. É genocídio. O mesmo em Gaza.

Pior. Os Estados Unidos estão perto de uma guerra nuclear com a Rússia. A classe que domina Washington, o Pentágono, Wall Street e os monopólios não aceita que a Rússia se levantou. A guerra na Ucrânia começou porque os Estados Unidos apoiaram nazistas em 2014. Que a Rússia luta e avança. Quanto mais avança, mais ameaças recebe. A OTAN segue ordens americanas. A guerra nuclear é uma possibilidade real. Só os Estados Unidos utilizaram armas nucleares. O Japão foi atacado e hoje tem mais bases americanas do que qualquer outro país.

Os Estados Unidos não agem como civilização. Agem como bárbaros. Estão arruinando vidas em todo lugar. O padrão de vida caiu desde que o império se consolidou. A pobreza explodiu. A dívida prende países. Só a China oferece cooperação real. Os Estados Unidos acusam a China de armadilha da dívida, mas são eles que deixam rastros de genocídio. Povos indígenas, escravidão, Filipinas, Vietnã, Coreia, Iraque. Meio milhão de iraquianos mortos por sanções. Chamaram isso de “vale a pena”.

Devemos ficar indignados. O império americano está em declínio. Há caos político interno. O povo sofre. O tempo está acabando, e o confronto com o sul global é inevitável. E o Irã é a chave da Eurásia. É parceiro da Rússia e da China. O objetivo final dos Estados Unidos é impedir que a China se torne a maior economia. Mas isso vai acontecer. A China assusta porque pode criar cooperação que exclui os Estados Unidos. Eles não sabem cooperar. Só sabem dominar.

Israel e Estados Unidos são duas faces da mesma moeda. Trabalham pelo mesmo império. Quanto mais os Estados Unidos declinam, mais violentos ficam; quanto mais violentos, mais o mundo busca alternativas. Cuba tenta se libertar do bloqueio. O Irã busca concessões para aliviar seu povo. Não é traição. É sobrevivência. Precisamos abandonar visões binárias. Geopolítica não é jogo. É vida. É luta de classes global.

O império americano é sustentado por uma elite secreta. Muitos não têm acesso ao poder. São explorados. Mas carregam a culpa. Não devemos sentir culpa. Devemos sentir raiva. Devemos ter determinação para acabar com o poder dessa elite. A multipolaridade é o caminho. A vitória da Rússia na Ucrânia será um golpe no império. Bem, a China, ao contrário, cresce sem guerra. Cooperação mútua é seu modelo. Diferente da dominação americana.

A humanidade não é o excepcionalismo americano. Precisamos encarar a realidade. O império aposta no colapso para enriquecer ainda mais. Alguns acreditam no fim dos tempos. Querem pegar tudo e deixar o resto sem nada. A luta da humanidade é contra isso. Só vamos sair juntos. Com solidariedade. Não com desespero, mas com otimismo e ação.

Nos Estados Unidos, milhões vivem na pobreza. Dívidas, prisões, racismo, violência. É difícil criar solidariedade. Mas há bilhões no mundo construindo algo diferente. Há resistência no Líbano, em Gaza, no Irã. A ordem multipolar está nascendo. O dólar perde força. A humanidade avança. A elite é minúscula. Quer que nos desesperemos. Quer que celebremos o 4 de julho sem pensar.

Não, não é assim. Precisamos pensar. Precisamos nos conectar. Verdade. Precisamos parar de desprezar os pobres, os presos, os imigrantes. Precisamos de dignidade. Portanto, precisamos de multipolaridade. Essa é a mensagem. Um caminho turbulento, sim, mas há esperança. A luta pela paz precisa continuar.

Hemingway e a Queda do Punho Norte-Americano

Ilustração original: "A verdade nunca vem inteira". Técnica de nanquim e carvão gerada por IA/Gemini.


Juidson Campos
Escrevinhados • Autor

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16 de jun. de 2026

O CASTELO DO MUNDO

O Castelo do Mundo

Por Juidson Campos

O óleo que lambia as pedras da Ilha do Governador não tinha a textura da terra virgem da Sibéria, mas trazia a mesma sombra da morte. Era 1978. Eu era jovem, e o cinema era uma sala escura onde o mundo fazia sentido, mesmo quando o mundo lá fora se dissolvia em resíduos químicos e descaso.

Vi um homem na tela. Era Dersu. Não era um herói de opereta, era um homem que falava com o fogo e com o vento. Ele entendia que a vida era um sopro, uma chama pequena que o mundo, com sua fome de progresso, se encarregava de apagar. Eu não sabia o nome do cineasta; para mim, o filme era apenas a verdade, bruta e sem filtros. Kurosawa era apenas o homem que permitiu que aquela verdade chegasse até mim, embora eu ainda não soubesse pronunciar seu nome.

Anos mais tarde, em uma locadora de fitas VHS — aquele santuário de plástico e ruídos magnéticos —, um colega me entregou Dreams. Vi os sonhos que se tornavam pesadelos, a cor que se convertia em alerta. Entendi, então, que o cinema não era apenas entretenimento; era uma lente que focava o que preferíamos ignorar.

Hoje, observo o tabuleiro. Os senhores da guerra mudaram de figurino. Não usam armaduras que rangem sob o sol, nem dependem da lealdade de filhos que cobiçam o trono. Agora, a guerra é decidida em salas de carpete alto e ar-condicionado, com a temperatura perfeita para o sangue frio. Eles não sujam as mãos de óleo ou lama; apontam para mapas com dedos limpos.

O destino do mundo virou um jogo de mesa entre cavalheiros que não ouvem o choro da terra, nem o grito dos que não têm voz. É o eco de Ran. O velho soberano, em sua soberba, dividiu seu domínio acreditando que a ordem duraria além de sua vontade. O resultado foi o caos: a bandeira queimando no castelo em chamas, o extermínio.

Nós estamos no castelo. A diferença é que, agora, o castelo é o planeta inteiro. Eles observam a tela dos radares, calculando perdas como se fossem estatísticas de uma colheita ruim. Eles não têm a sabedoria de Dersu, que sabia que o homem é apenas um hóspede da natureza. Eles se sentem donos da casa.

Quando a história for escrita — se é que alguém restará para escrevê-la — veremos que nossa tragédia não foi a falta de avisos, mas a nossa incapacidade de ver que, por trás das cortinas fechadas e das negociações frias, o destino de todos nós é apenas combustível para a vaidade de meia dúzia de homens que, como em Ran, estão prontos para ver tudo queimar em nome de um poder que eles nunca, de fato, possuíram.

Para aprofundar a experiência:

Os links acima direcionam para conteúdos públicos hospedados no YouTube, servindo apenas como referência educacional e cultural para esta crônica. Todos os direitos sobre as obras pertencem aos seus respectivos detentores.

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31 de mai. de 2026

O SOLDADO E O RUÍDO

O Soldado e o Ruído

Por Juidson Campos

Em 1945, o soldado brasileiro caminhou sob o inverno das montanhas italianas. Carregava um fuzil e o peso de um país que mal conhecia. O frio tinha dentes, era uma presença física: congelava o metal, mordia os dedos e fazia o tempo parar. Conquistou colinas porque disseram ser necessário. Viu homens morrerem por linhas de trincheiras; não pediu licença ao inimigo, apenas avançou.

Havia honra naquilo. Não a honra dos livros, mas a da sobrevivência e do dever cumprido quando o mundo parecia ter enlouquecido. Quando voltou, trouxe cicatrizes e o silêncio daqueles que viram o fim e sobreviveram.

Hoje, os tempos são outros. O frio não vem das montanhas; o gelo está nos gabinetes acarpetados de quem prefere o calor de um poder tirânico. Não caminham na neve, não passam fome; caminham em corredores de mármore em capitais estrangeiras. Levam o pires na mão para implorar intervenção. Olham para o próprio país como uma propriedade em liquidação. Chamam de diplomacia. Chamam de defesa da democracia.

O soldado, em 1945, dava a vida para que o Brasil não fosse tutelado. O político de hoje entrega a soberania para que ele próprio não seja esquecido pela história. O soldado era feito de carne, medo e coragem. O político é feito de palavras, medo e vaidade. Um conhece o preço do solo; o outro, o preço de um telefonema para quem vive no hemisfério norte.

É curioso: o soldado de ontem lutou para que o país existisse, mas há certos políticos de hoje que lutam para que o país se curve. Ambos são reais. Mas apenas um deles sabe o que significa ser brasileiro, sobretudo quando o sol se punha e o silêncio da trincheira era a única resposta.

O resto é ruído. E o ruído não tem honra.

Nota de Resumo Complementar: Esta crônica estabelece uma dicotomia ética entre o sacrifício histórico dos combatentes brasileiros na Segunda Guerra Mundial e o comportamento de certas lideranças políticas da atualidade. O autor exalta a coragem daqueles que enfrentaram o rigor das batalhas pela soberania nacional, contrastando esse brio com a vaidade contemporânea de quem prioriza interesses particulares e gabinetes luxuosos. A crítica central recai sobre a busca por tutela estrangeira, interpretada como uma fragilidade diplomática que desonra a memória dos soldados. Em última análise, o texto define a verdadeira identidade do país como um compromisso com o dever, tratando a submissão a poderes externos como uma traição ao legado de independência conquistado nas trincheiras.

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23 de mai. de 2026

A MOLDURA DO FIM

A Moldura do Fim

Por Juidson Campos

Sei que o tempo parece um oceano sem fim. Mas só parece. Afinal, acordo, faço planos, e o tempo segue com aquela impressão de que a vida nunca vai deixar de existir.

É engano. Existe uma voz silenciosa em volta de mim. Ela viaja como uma sombra invisível, exata, e sussurra suavemente a finitude em meus ouvidos… às vezes nem sobra tempo de ouvir.

Oh, não importa, isso não vai acontecer agora; é muito cedo. Vou me distrair, aproveitar; logo esqueço dessa ideia tão fúnebre. É simples assim. Fingirei que sou imortal.

Sim, é isso mesmo, não importa se é uma ilusão; só preciso não sentir medo, basta olhar para o fim como algo distante, tipo uma peça pregada pela minha imaginação.

Enquanto isso, sinto o vento no rosto, o sol a brilhar sobre o mar e o coração a pulsar. Viver é o que importa, não preciso fugir: a morte ainda está muito longe de mim.

E quando ela finalmente chegar?

Bem, por certo já terei partido, deixando a dor esvaecida, imóvel e dissolvida junto ao corpo que tive. Ora, por que sofrer antes da hora se tal encontro quiçá nunca compreenderei?

Talvez até transforme minha existência em um descanso, o merecido suspiro de um alívio final, num universo, aliás, que caminha para a calmaria do fim eterno de tudo. Igual. Vai se saber?

Só me resta o tempo limitado. Talvez me desapegue daquela sombra onde apenas se copia o que todos fazem. É a urgência do fim, dando-me valor e coragem a cada passo que escolho dar no presente.

Se um dia o universo me parecer um lugar vazio, inventarei o meu próprio sentido. Tentarei ser feliz, mesmo empurrando a minha própria pedra montanha acima, ao menos tentarei fazer da existência a minha obra de arte.

Um desafio que também me sussurra: viva cada paixão, cada amizade de tal forma completa, que se o universo me oferecer repetir a exata mesma vida por toda a eternidade, sorrirei e gritarei que sim… bem, desde que não haja esta tortura sem fim.

Aliás, o grande crime não é perecer, mas viver adiando tudo, como se houvesse o tempo infinito que, na verdade, não tenho. Quando o fim parece real, a ilusão cai e só o importante permanece.

Não pretendo deixar que a sociedade assustada me esconda o manual da minha vida. Devo, portanto, fazer da finitude a moldura do meu próprio quadro de viver.

Ela é o filtro que limpa as futilidades, a linha imaginária que dá sentido à corrida. Saber que a vida acaba é um peso, sim, mas, ao mesmo tempo, é o convite para começar a viver de verdade, afinal ainda estou vivo.

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6 de mai. de 2026

O SILÊNCIO DOS IGUAIS

O Silêncio dos Iguais

Por Juidson Campos

O sol ainda esquenta a terra árida. A poeira sobe e desce. É antiga. O sangue seca rápido na areia. A guerra, não. Já dura setenta e sete anos. É muito tempo no mesmo conflito.

A mulher, agora, tem trinta e cinco anos e observa o filho. O menino tem dez anos e brinca no chão. Ela sente o peso do tempo. Sabe como a engrenagem gira. Quando nasceu, isso tudo já existia.

Ela vestiu o uniforme militar na juventude, e essa lembrança não a abandona. O marido serviu no exército. O pai dele, também. O fuzil é uma herança de família.

A matemática é simples e cruel: em oito anos, o menino completará dezoito e também se apresentará ao quartel.

A mãe decide interromper a marcha. Quebra o silêncio e pergunta ao marido: "Queremos viver assim? Queremos nosso filho no exército daqui a oito anos? Qual é o nosso futuro aqui?".

O futuro é sombrio porque a ideologia precisa disso. Sim, a máquina precisa de inimigos para se manter viva. Sem a guerra, a ideologia perde o sentido e o poder.

O Estado não tem uma constituição. Os mesmos homens que fazem as leis as executam. Apenas mudam de sala, mas são os mesmos. Aprovam regras para a proteção do governo, quando, na verdade, a lei deveria proteger o povo.

Pior ainda. Dizem que é uma democracia, mas a religião e o Estado caminham juntos; não há como distingui-los. A verdadeira democracia não é assim, profundamente misturada, é necessário separar os velhos deuses do governo pragmático dos homens.

Muitos não aguentam mais olhar para a frente e não ver nada. Somente uma miragem, uma ilusão. Tanto que duzentos e setenta mil arrumaram as malas e deixaram o país. Fogem da violência irracional.

A velha ideia de dois estados separados não funciona e parece cada vez mais distante. O ódio é grande, e as feridas continuam abertas, com o sangue ressecado, polvilhado de areia.

Mas existe um plano na mesa. Uma proposta realista e honesta: um governo federal.

São quinze milhões e meio de pessoas sob a mesma lei, na mesma terra. Juntos, israelenses e palestinos. Ninguém destrói os governos locais, mas constrói-se um teto em comum. Um parlamento com trezentos assentos.

A matemática do poder muda. Para uma nova lei existir, cinquenta e cinco por cento dos representantes de cada lado devem dizer sim. A minoria tem força. A minoria tem proteção. A lei suprema é laica e trata todos como iguais, sem perguntar como rezam ou de onde vêm.

A mãe olha para o menino de dez anos. Não quer mais vitórias militares. Quer apenas que o menino viva. A paz é a única segurança verdadeira. Se existe a paz, os exércitos perdem a utilidade e a vida continua.

O menino para de correr e olha para a mãe. O sol continua a queimar. Ela sabe que a verdadeira coragem agora não é atirar, mas sim construir um único país onde o filho não precise morrer.

Seria um sonho, uma utopia criar regras justas e tratar a todos com igualdade? Não seria o meio mais sincero de resolver essas brigas que parecem impossíveis de terminar?

Assista também:

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3 de mai. de 2026

O DEVER DO PÃO

Ouça a análise literária
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O Dever do Pão

A fome é micro e macro, ao mesmo tempo. Pode-se dizer que é biologicamente atemporal. Basta ter vida para ter fome.

Desde sempre, todos os bosques, todos os animais, alimentam-se do chão, dos rios, das chuvas e do ar... Os seres humanos também.

Não como antes, é claro; porque, atualmente, cerca de 318 milhões de pessoas enfrentam a fome aguda no mundo, acredite. Evidentemente, nesses números alarmantes, devem ser incluídas as crises climáticas, os ataques em Gaza, além dos cortes na ajuda internacional em vários países ou regiões.

Isso é triste, desanimador, porque, enquanto algumas iniciativas buscam reduzir desigualdades e garantir dignidade, os conflitos armados e políticas bélicas em diferentes regiões do mundo — incluindo a atuação de grandes potências e de países em guerra — têm contribuído para o aumento da fome global, ao deslocar populações, destruir sistemas agrícolas e reduzir recursos destinados à ajuda humanitária.

O Brasil, por exemplo, com o ‘Fome Zero’, ofereceu ao mundo um exemplo de política pública voltada à vida e à justiça social, contrastando com modelos que priorizam a guerra e acabam agravando a crise alimentar mundial.

Outro exemplo?

Cacique Raoni e o provérbio indígena

A fome, para os povos indígenas, não é apenas biológica: é ruptura da harmonia entre humanos, natureza e cosmos. O combate à fome passa por solidariedade, partilha e respeito à terra, valores que contrastam com modelos individualistas de consumo. Essas práticas revelam ao mundo uma visão alternativa e profundamente humana sobre como garantir alimento e dignidade.

Mais um exemplo?

Conheça Amritsar.

O templo dourado fica no centro, e a cidade inteira gira ao redor dele. Antes de cruzar os portões, é preciso cobrir a cabeça. Lavar as mãos. Depois, os pés. A água é limpa, embora milhares de pessoas passem por ali todos os dias.

Os homens usam turbantes. Um detalhe: no passado, naquela região do Punjab, apenas a realeza os usava. Os sikhs mudaram isso. Eles disseram que todos os homens usariam também. Não haveria mais reis ou plebeus, apenas homens iguais.

O turbante na multidão passou, então, a ser a marca de um homem pronto para ajudar quem precisasse. Era o dever deles.

A cozinha não para. Funciona vinte e quatro horas por dia, todos os dias do ano. Cem mil pessoas entram e comem ali diariamente. Ninguém cobra nada. Ninguém paga nada.

Na hora de comer, as pessoas sentam-se no chão em longas fileiras. Comem arroz, grão-de-bico, lentilhas e pão. Bebem água de potes de metal.

Quando a refeição acaba, levantam-se. Imediatamente, homens jogam água fervendo e limpam o chão. Tudo é limpo, rápido e organizado.

Perto dali, o som do metal batendo é alto e constante. Mais de duzentas pessoas lavam pratos ao mesmo tempo. Não há chefes dizendo o que fazer. Se há algo sujo, um homem vai até lá e limpa. Eles não recebem salário por isso.

Ali, os homens doam dez por cento do que ganham. Quem não tem dinheiro, doa o próprio tempo. Fazer o bem aos outros é apenas o básico.

Não acredita? Para conhecer a cidade e entender em detalhes como tudo isso funciona, assista ao vídeo logo abaixo.

Aqui, um vídeo inspirador do canal Davi e Cata. Confira, você vai se surpreender:

Assista ao vídeo de Amritsar no YouTube
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1 de mai. de 2026

ENTRE O SOLDO E O SALÁRIO

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Entre o Soldo e o Salário

Ele caminha pela rua com a marmita fria na mão. O uniforme invisível é o da rotina, mas o corpo carrega marcas de batalhas silenciosas. Não voltou de uma guerra distante; voltou de um turno de trabalho. O soldado que regressa do front e o operário que regressa da fábrica se reconhecem no mesmo cansaço.

O soldado recebe o soldo; o trabalhador, o salário. Ambos descobrem que o dinheiro não basta para comprar dignidade. O veterano dorme sob pontes, esquecido pela pátria que exaltou seu sacrifício. O operário enfrenta filas de emprego, esquecido pela empresa que exaltou sua produtividade.

A guerra não termina. Apenas muda de cenário. No campo de batalha, o inimigo é outro homem. No mercado de trabalho, o inimigo é a inflação, o desemprego, a máquina que substitui braços. O Estado precisa deles enquanto produzem, enquanto lutam. Depois, são descartados.

O soldado e o operário se encontram no mesmo silêncio. Um lembra o som dos tiros; o outro, o som da sirene da fábrica. Ambos sabem que, quando a guerra ou o turno termina, a luta pela sobrevivência continua.

E, neste Dia do Trabalho, a reflexão se impõe:
se a sociedade celebra o sacrifício de quem luta — seja com armas ou com ferramentas — mas permite que ambos terminem na mesma vulnerabilidade, qual é, afinal, o sentido de tudo isso?

Escrevinhados - Juidson Campos

28 de abr. de 2026

SESSENTA DIAS

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Sessenta dias

Sessenta dias de guerra contra o Irã. Parece muito. Mas não é. É só mais uma guerra.

Li no Twitter. Rolei o feed; tomei café, li de novo. Antes foi Gaza. Lembro das primeiras postagens. Um prédio cedendo. Depois, outro. Novas explosões. Depois, vi um vídeo de uma mãe procurando o filho no meio dos escombros. Girei o celular na mão e fui ver o preço da gasolina.

O Líbano veio depois. Ou junto — nem sei mais. As notícias se misturam. Bombardeios no sul de Beirute. Uma escola bombardeada. Mais de cem crianças mortas. Um hospital foi atingido. Clico na foto, aumento, vejo poeira cinza. É sempre a mesma poeira.

Agora é o Irã. Sessenta dias. Os Estados Unidos autorizaram mais ataques. Israel faz o grosso da força. O noticiário diz “retaliação”. Diz “escalada”. Diz “eixo do mal”. Palavras gastas. Servem para qualquer guerra. Basta trocar o nome do país.

De noite, no jantar, comento com minha mulher. Ela mexe o arroz e pergunta: “Qual delas?”.
Tem razão. São tantas.

Abro o Instagram. Um amigo posta a bandeira de Israel. Outro, a bandeira da Palestina. Uma terceira diz que o Irã tem direito de se defender. Ninguém se fala mais. Só compartilham links. E aquela sensação de virtude embrulha meu estômago.

Também já compartilhei sobre isso. Nem as bandeiras, nem as guerras. Somente perguntas do tipo: Por quê? Qual a razão disso tudo?
Foi só no começo. Hoje, só rolo a tela. Meu dedo cansou.

Gaza ainda está lá. Só não aparece mais com tanta frequência. O algoritmo prefere a novidade. O Irã agora é a novidade. Amanhã será outro lugar. Ou a mesma guerra com outro número de dias.
Cem dias. Duzentos. O aplicativo vai me avisar.

Sessenta dias. E o que fiz? Trabalhei. Dormi. Tive uma discussão besta no trânsito. Comprei pão. Liguei para um amigo. A guerra não entrou pela janela. Entrou pelo Wi-Fi.
Isso me envergonha. Um pouco. Mas a vergonha também cansa.

Os mortos do Irã, do Líbano… têm nome. Os de Gaza, também. Mas meus dedos já não alcançam. Meu país está longe. Minha rua está próxima, só dobrar a esquina. Então desligo meu smartphone, respiro fundo e entro em casa.

Sessenta dias. O silêncio do mundo é tão ensurdecedor. Meu silêncio, pior, constrangedor. Em silêncio, como bolachas com mel e reclamo do calor. Porque abro a geladeira… Porque ainda tenho uma geladeira para abrir.
Sessenta dias. E amanhã, sessenta e um.

O celular vai vibrar. E eu vou ler. Não vou sentir nada. E sentir esse nada vai doer — só o suficiente para escrever outra crônica. Vou seguir vivendo. Como se viver não fosse também uma forma de desistir de olhar.

Fim da tarde. O sol desce manso, como se nada estivesse acontecendo. O cinismo do mundo é esse: o céu continua azul. As andorinhas voltam do mar. E os mortos, esses, fazem uma longa fila invisível esperando a contagem.

Sessenta dias.
Caramba.

O tempo não cura nada. Só empilha dias como quem empilha sacos de areia. No fim, você tem um muro diante de si. Mas o muro também cede.

Sacos de areia e concreto em ruínas

5 de abr. de 2026

O MESMO CÉU

O MESMO CÉU

Quase ninguém, em sã consciência, olha para o céu com outros olhos. É quase sempre de relance. Com muita pressa. Seja para ver se vem chuva ou se vem sol, ou por qualquer outro motivo que tenha a ver com o nosso mundo mais urgente e necessário.

Não é como estar debaixo das árvores. Imensas. Copadas. Onde, por exemplo, não se sente calor, tampouco frio. E se não há vento, nem brisa, isso também não importa. Somente um leve frescor pelo ar, isso já basta, é suficiente para se sentir em paz consigo próprio.

Na verdade, mesmo, um privilégio, uma graça terrena sentir-se em sintonia com a natureza. Você até escuta a folha seca cair do alto, ecoando de galho em galho… e, nesse mesmo instante, descobre um avião cruzando as nuvens, em silêncio, e nem sequer sente medo.

Mesmo assim, tudo isso é uma lástima inexplicável. Tudo isso é tão triste — uma calamidade, um flagelo. Esse mesmo céu azul, por onde as nuvens passam, é o exato céu que paira sobre os escombros de Gaza.

A ironia beira o insuportável. O avião que aqui risca a imensidão como um pássaro inofensivo, lá ainda desponta como o mensageiro do fim. É o mesmo sol que doura a folha no meu quintal, iluminando a poeira densa das casas desabadas. Falta-nos a grandeza de olhar para cima e entender o mais elementar. Respiramos todos abrigados pelo mesmíssimo teto.

O firmamento não conhece fronteiras. Não desenha mapas no alto. Tampouco escolhe de quem será a nuvem da tarde. Ele simplesmente se estende, infinito e igualitário, enquanto teimamos em fragmentar o universo em nossa volta, acreditando que o azul que nos cobre é exclusividade nossa, alheios ao fato de que a natureza oferece a vastidão a todos, sem distinção.

A verdadeira tragédia não está lá no alto. Está na cegueira de quem rasteja pela terra. Se tivéssemos a decência de contemplar o espaço com a alma desarmada, entenderíamos que o mundo é somente um único quintal, nada mais. Mas não adianta. O homem prefere olhar para baixo, para o chão. Prefere construir para, mais cedo ou mais tarde, tão logo destruir.

Somos seres amaldiçoados? Preferimos cavar trincheiras, fabricar abrigos subterrâneos para suportar o inferno que nós próprios criamos, geramos. Enquanto isso, o céu assiste a tudo, impassível, à nossa própria ruína, à nossa própria tragédia estupidamente desumana…

Será que somos mesmo seres civilizados?


Abaixo, um vídeo sobre Gaza atual:

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31 de mar. de 2026

O COLAPSO

O COLAPSO

O que acontece no mundo beira o macabro. Acabou a ilusão da guerra distante, restrita a um único CEP. O controle ruiu. O cenário virou uma panela de pressão global engolindo Irã, Israel, Estados Unidos e o que mais estiver no caminho.

Tudo acelerou após o ataque aéreo contra mil alvos no Irã. A meta era paralisar o país. O Irã não cedeu. Em vez do confronto direto, respondeu com tempestades de mísseis balísticos e drones. A tática é a exaustão financeira: vencer pelo cansaço do bolso inimigo, obrigando o gasto de fortunas para interceptar cada ataque até esgotar as defesas aéreas.

O fogo se alastrou. Mísseis sobre Israel, o Líbano arrastado para o caos e as rotas navais do Golfo Pérsico bloqueadas. Uma teia de cordas grossas onde todos se enforcam.

Os Estados Unidos entraram com força bruta, colhendo apenas protestos e rachaduras políticas internas. A Europa recuou. Assombrada pelo espectro da crise energética e migratória, abraçou a diplomacia. A vitrine da união ocidental trincou. Washington afundou num buraco negro geopolítico: pensam que entrar numa guerra é apenas apertar um botão, mas sair dela é quase impossível.

O que embrulha o estômago, no entanto, é a carne civil. Já não se disputa território; disputa-se o fôlego do dia seguinte. Casas, hospitais e escolas viraram escombros. Água e luz são luxos de um passado recente.

Há crianças crescendo sob o uivo das sirenes, aprendendo que o trauma é a regra do mundo. O futuro cobrará a conta. Uma geração inteira tem a mente mutilada hoje.

No fim, o lucro é zero. Resta apenas o custo incalculável da incerteza. O que sangra no tabuleiro não é o poder militar, mas o próprio pilar que sustenta o que resta de ordem no mundo. A única dúvida é se ainda existe alguém lúcido o bastante para pisar no freio antes que a vingança consuma o que sobrou.

Esta crônica é exclusiva do blog. Para mergulhar em outras histórias, vá ao menu e visite a página [RESUMOS/ÁUDIO/LIVROS].

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20 de mar. de 2026

O PREÇO DO FOGO E O PESO DO SILÊNCIO

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O Preço do Fogo

E o Peso do Silêncio


Enquanto o mundo arde, o fogo queima mais além, nós assistimos ao incêndio pela tela fria do smartphone ou da TV. Estamos apáticos, sentimos uma preguiça de não pensar para não fazer doer ainda mais. Do conforto anestesiante de nossos lares, então consumimos essa loucura, essa tragédia geopolítica, sentindo uma frustração estéril, uma indignação de sofá que morre antes mesmo de cruzar a porta de casa.

Mas, ainda assim, este alerta precisa ecoar, precisa insistir, nem que tenha que reverberar como um soco no estômago de nossa inércia: não podemos mais ser a plateia muda assistindo o nosso próprio fim.

Há uma ironia totalmente macabra em todo esse tabuleiro global mais atual: menos de um punhado de pessoas com mentalidade velhaca e criminosa está nos ferrando silenciosamente por trás. É uma verdadeira “quadrilha” que sorrateiramente chantageia as rédeas da política sem ninguém notar. E pior, decidiu arriscar: risca um palito de fósforo sob uma nuvem de gás inflamável.

Mas afinal, quem irá se queimar?

Enquanto move a chama, sente-se protegido pela distância, não se importa com o preço da insana estupidez, sabe que será pago de imediato com a vida de crianças e civis inocentes que tombam sob o fogo. Mas a fatura dessa loucura não respeita fronteiras, pode ter certeza disso. O alerta é claro e universal: as classes trabalhadoras de todo o planeta arcarão com as consequências desse jogo insano de poder. Sim, isso mesmo, pode acreditar: somos nós a engrenagem que move o mundo, que continuamos, no fim das contas, a financiar com suor e empobrecimento, as bombas desses tiranos.

É exatamente por isso que o vazio de nossas avenidas é tão ensurdecedor e vastamente decepcionante…

Onde estão os milhões marchando? Sim! Onde está o levante popular exigindo o fim dessa insanidade?

O conformismo revela nossa cumplicidade. O alerta bate em nossa porta, exige nossa ruptura: parem de apenas assistir à mídia, recusem o papel de vítimas, tomem as ruas ou qualquer outro espaço de mobilização! É um dever moral dizer um sonoro “NÃO” a esse grupo criminoso que empurra a humanidade para o abismo!

Não nos enganemos com a ilusão de que este é apenas mais um conflito regional passageiro! A gravidade do nosso tempo está batendo em nossa porta e ninguém parece ouvir ou, quem sabe, espera alguém ir lá abrir…

Mas quem?

Estamos atravessando um dos momentos mais difíceis e críticos da história da humanidade, a turbulenta transição de uma ordem mundial para outra. A encruzilhada é impiedosa, não podemos nos afastar da TV! Mas perceba: se continuarmos de braços cruzados, se continuarmos nos recusando a nos envolver de forma mais sincera e ativa, o futuro cobrará seu tributo com guerras ainda maiores e cada vez mais sangrentas.

O alerta grita na porta, o recado foi dado e o relógio da história não perdoa a omissão. Ou a sociedade civil global se levanta para arrancar os fósforos das mãos dessa quadrilha ou amanhã todos nós, sem exceção, seremos consumidos pelo fogo que nos recusamos a apagar.


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19 de mar. de 2026

O QUE RESISTE

O QUE RESISTE


A guerra chega devagar, como um homem velho subindo uma escada. Primeiro um pé, depois o outro. Depois, quando você menos espera, ela está ali, sentada na sua sala, contando mentiras sobre honra.

Estive pensando nisso esta manhã, enquanto limpava meus óculos. As notícias chegam pelo rádio, pelas redes sociais, mas as notícias nunca contam a verdade. Dizem que o Irã está fabricando armas nucleares. Dizem ser preciso agir com a mesma voz com que disseram sobre o Iraque, sobre o Afeganistão, sobre tantos lugares que já não existem mais como existiam.

Estamos falando de uma civilização cujos ancestrais ainda viviam em cavernas. E isso não é arrogância, é apenas um fato. Os norte-americanos sequestraram o presidente na Venezuela. Disseram ser por causa das drogas. Sabemos que não é isso. É pelo petróleo que brilha na superfície da água como sangue de peixe.

Um homem pode justificar qualquer coisa se tiver uma boa história. Na guerra, aliás, cada um com sua própria justificativa. Não importa se eles têm famílias, têm receios, têm olhos que nos olham enquanto perecem. No final, a justificativa não importa. O que importa é que eles estarão mortos e eu estou aqui, escrevendo sobre isso.

O petróleo é apenas petróleo. Queima, move máquinas, suja as mãos. Mas os homens matam por ele como matam por mulheres ou por terras há mais de três mil anos. Nada muda. Apenas as armas ficam mais eficientes.

No Irã, as crianças ainda devem estar brincando nas ruas. Os mercados ainda devem estar cheios de especiarias e tecidos coloridos. Os velhos ainda devem se sentar à sombra das mesquitas azuis, contando histórias sobre Alexandre e sobre os árabes e sobre os mongóis que vieram e foram embora. Porque no Oriente Médio os impérios vêm e vão como as marés, mas o povo fica.

Agora virão os bombardeios inteligentes, as munições guiadas por precisão, os comunicados oficiais. Chamarão de operação, de intervenção, de defesa preventiva. Mas no fundo é sempre a mesma coisa: homens com poder enviando homens sem poder para matar outros homens que também não têm poder.

E quando tudo acabar, quando o último poço estiver seco e a última bomba tiver caído, o que restará? Os poemas persas ainda existirão. As mesquitas ainda estarão de pé, talvez. E os velhos continuarão sentados à sombra, contando sobre o tempo em que os americanos vieram, com suas justificativas e suas bombas, e depois foram embora.

Porque, no fim, a única coisa que realmente importa é o que resiste. O petróleo acaba. As justificativas também. Mas um povo antigo, milenar, que já viu impérios nascerem e morrerem, esse continuará.


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