O Silêncio dos Iguais
Por Juidson Campos
O sol ainda esquenta a terra árida. A poeira sobe e desce. É antiga. O sangue seca rápido na areia. A guerra, não. Já dura setenta e sete anos. É muito tempo no mesmo conflito.
A mulher, agora, tem trinta e cinco anos e observa o filho. O menino tem dez anos e brinca no chão. Ela sente o peso do tempo. Sabe como a engrenagem gira. Quando nasceu, isso tudo já existia.
Ela vestiu o uniforme militar na juventude, e essa lembrança não a abandona. O marido serviu no exército. O pai dele, também. O fuzil é uma herança de família.
A matemática é simples e cruel: em oito anos, o menino completará dezoito e também se apresentará ao quartel.
A mãe decide interromper a marcha. Quebra o silêncio e pergunta ao marido: "Queremos viver assim? Queremos nosso filho no exército daqui a oito anos? Qual é o nosso futuro aqui?".
O futuro é sombrio porque a ideologia precisa disso. Sim, a máquina precisa de inimigos para se manter viva. Sem a guerra, a ideologia perde o sentido e o poder.
O Estado não tem uma constituição. Os mesmos homens que fazem as leis as executam. Apenas mudam de sala, mas são os mesmos. Aprovam regras para a proteção do governo, quando, na verdade, a lei deveria proteger o povo.
Pior ainda. Dizem que é uma democracia, mas a religião e o Estado caminham juntos; não há como distingui-los. A verdadeira democracia não é assim, profundamente misturada, é necessário separar os velhos deuses do governo pragmático dos homens.
Muitos não aguentam mais olhar para a frente e não ver nada. Somente uma miragem, uma ilusão. Tanto que duzentos e setenta mil arrumaram as malas e deixaram o país. Fogem da violência irracional.
A velha ideia de dois estados separados não funciona e parece cada vez mais distante. O ódio é grande, e as feridas continuam abertas, com o sangue ressecado, polvilhado de areia.
Mas existe um plano na mesa. Uma proposta realista e honesta: um governo federal.
São quinze milhões e meio de pessoas sob a mesma lei, na mesma terra. Juntos, israelenses e palestinos. Ninguém destrói os governos locais, mas constrói-se um teto em comum. Um parlamento com trezentos assentos.
A matemática do poder muda. Para uma nova lei existir, cinquenta e cinco por cento dos representantes de cada lado devem dizer sim. A minoria tem força. A minoria tem proteção. A lei suprema é laica e trata todos como iguais, sem perguntar como rezam ou de onde vêm.
A mãe olha para o menino de dez anos. Não quer mais vitórias militares. Quer apenas que o menino viva. A paz é a única segurança verdadeira. Se existe a paz, os exércitos perdem a utilidade e a vida continua.
O menino para de correr e olha para a mãe. O sol continua a queimar. Ela sabe que a verdadeira coragem agora não é atirar, mas sim construir um único país onde o filho não precise morrer.
Seria um sonho, uma utopia criar regras justas e tratar a todos com igualdade? Não seria o meio mais sincero de resolver essas brigas que parecem impossíveis de terminar?
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