Entre o Soldo e o Salário
Ele caminha pela rua com a marmita fria na mão. O uniforme invisível é o da rotina, mas o corpo carrega marcas de batalhas silenciosas. Não voltou de uma guerra distante; voltou de um turno de trabalho. O soldado que regressa do front e o operário que regressa da fábrica se reconhecem no mesmo cansaço.
O soldado recebe o soldo; o trabalhador, o salário. Ambos descobrem que o dinheiro não basta para comprar dignidade. O veterano dorme sob pontes, esquecido pela pátria que exaltou seu sacrifício. O operário enfrenta filas de emprego, esquecido pela empresa que exaltou sua produtividade.
A guerra não termina. Apenas muda de cenário. No campo de batalha, o inimigo é outro homem. No mercado de trabalho, o inimigo é a inflação, o desemprego, a máquina que substitui braços. O Estado precisa deles enquanto produzem, enquanto lutam. Depois, são descartados.
O soldado e o operário se encontram no mesmo silêncio. Um lembra o som dos tiros; o outro, o som da sirene da fábrica. Ambos sabem que, quando a guerra ou o turno termina, a luta pela sobrevivência continua.
E, neste Dia do Trabalho, a reflexão se impõe:
se a sociedade celebra o sacrifício de quem luta — seja com armas ou com ferramentas — mas permite que ambos terminem na mesma vulnerabilidade, qual é, afinal, o sentido de tudo isso?
Compartilhe esta crônica: