EM PRATOS LIMPOS
ENTRE A BÍBLIA, A LOUÇA E A CONVENIÊNCIA
Calma. Não fui eu quem disse que a mulher deve se submeter ao homem; foi a Bíblia — ao menos segundo a interpretação de um ex-procurador-geral da Lava Jato. Prefiro não citar nomes, até porque o Brasil inteiro sabe de quem estamos falando.
Para começo de conversa, usar textos sagrados como fonte de autoridade para justificar a opressão feminina é ignorar solenemente os contextos históricos, culturais e as múltiplas interpretações que surgiram ao longo dos séculos. Tal postura pressupõe que o homem detém o direito divino de mandar e a mulher o dever de obedecer, negando-lhe autonomia e dignidade.
É o mesmo que associar a lavagem da louça a uma tarefa exclusivamente feminina, reforçando estereótipos que confinam a mulher ao papel de "cuidadora recatada do lar". No entanto, a realidade desmente a conveniência: hoje, nas cozinhas profissionais, a função de lava-pratos é amplamente exercida por homens. Aliás, voltando aos tempos bíblicos, convenhamos, tal profissão sequer existia.
Lavar a louça é uma tarefa doméstica que deve ser compartilhada por todos que habitam a casa, independentemente do gênero. Usar a religião para justificar a própria preguiça ou o machismo é, no mínimo, uma distorção moral.
Desrespeitar a vontade e o consentimento da mulher, impondo-lhe obrigações não compartilhadas, é violar os princípios básicos de liberdade e igualdade. É hora de parar de usar a fé como escudo para o atraso.
Portanto, para colocar tudo em pratos limpos: ele deveria lavar mais a louça. Afinal, tentar "lavar" a corrupção do país com métodos questionáveis não deu muito certo — foi uma total enganação!