DE TRAGÉDIA EM TRAGÉDIA ALÉM DO BANG-BANG

Tantas atrocidades ao meio de bizarrizes acontecendo em simultâneo. Os meios tornam-se os fins, os fins tornam-se os meios, e fica tudo por isso mesmo. Ora, para que explicar, se desde o começo tudo ficou assim, quando a placa com o nome de Marielle Franco, por exemplo, foi rasgada em plena campanha eleitoral?

Para que explicar os motivos que levaram ao incêndio do Museu Nacional? Lembremos da tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria. O prédio não havia nem sequer saída de emergência. Esses exemplos não evocariam uma advertência quando também ocorreu a tragédia de Brumadinho após a tragédia de Mariana?

E o que dizer das queimadas no Amazonas e o óleo derramado no Nordeste? Agora são notícias de assassinatos constantes. O ano de 2019 não deixou passar despercebido o músico fuzilado com mais de 80 tiros ou a morte da menina Agatha. São crimes com responsabilidade do Estado por avalizar o excludente de ilicitude defendido pelo próprio presidente.

Daí tragédias além do bang-bang. São mortes de inocentes que morrem continuamente. Recentemente, a morte de nove jovens que não possuíam histórico criminal, exceto que viviam em periferias de São Paulo. Ora, que fosse baile, balada ou pancadão, nada poderá justificar tamanha opressão, nem mesmo o direito de calar a tiros vizinhos barulhentos.

Afinal, que espécie de sociedade este país está se tornando?

Texto: Juidson Campos

O RESTO É SILÊNCIO

Tenho falado pouco. Na verdade, muito pouco mesmo, quase nada. Somente "sim" ou somente "não" como resposta direta, pois quem se importa se não há mesmo o que dizer quando não existem sequer ouvidos, sequer palavras, exceto um ar de solidão indiferente, todos compenetrados sobre suas janelas luminosas.

Aqui no metrô, por exemplo, ainda permaneço olhando para o vazio, para o nada, através da minha janela viva, mais real. Estou tentando me acostumar com o que está acontecendo à minha volta. Espiei uma mulher um pouco mais afastada de mim; ela também me observa de relance. Está lendo um livro — uma coisa rara hoje em dia.

Curiosamente, o título do livro é O Resto é Silêncio, de Érico Veríssimo. Coincidência ou não, ando com este pensamento na cabeça. Reconheço: tornamo-nos mariposas de olhos enfeitiçados sobre as janelinhas dos celulares de luzes esplendorosas…

Oh, tudo bem, que se dane! Afinal, quem se importa senão eu ou ela, ali sentada próxima de mim? Ora, ainda estamos desacostumados, deslocados no tempo. Aqui jazemos incrédulos, solitários, continuamos a sós nesse vagão de metrô. O resto é silêncio, nada mais!

Texto: Juidson Campos

BRASIL: ANO 2019

De manhã cedo, um cidadão comum entrou no bar para tomar café antes de seguir para o trabalho. Eu estava ali, com minha xícara já pela metade. Enquanto ele aguardava no balcão, ao lado, também leu no jornal, em caixa alta, essa manchete:

PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA PRETENDIA ASSASSINAR O MINISTRO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.

Coitado, tive a impressão de ele não ter acreditado no que lera, talvez pensasse ainda estar dormindo, sei lá. Engoliu seco, coçou brevemente a cabeça e, em seguida, disse ao garçom:

— Mudei de ideia, me traz um conhaque!

É. A vida anda cada vez mais difícil. Também pudera, no começo eu também quase não acreditei; só não desisti do café.

Texto: Juidson Campos

O AZAR DA BORBOLETA

Uma vez li um artigo sobre as borboletas. Passei por cima dos nomes científicos, palavras complicadas de guardar na memória. O que me interessou foi o ciclo de vida em quatro fases: ovo, larva, pupa e imago. Além disso, elas são pré-históricas. Imagine só: elas borboleteavam fragilmente por entre brutamontes dinossauros de alongado pescoço!

Talvez seja por isso que, antes de se tornarem belas, ainda sejam lagartas gordas e feias que passam o dia devorando folhas. Só encerram a atividade após um ano, quando hibernam para a metamorfose. É um processo impressionante, mas considerei injusto o paradoxo: muitas espécies borboleteiam somente por um dia para depois morrerem absurdamente!

Tive a sorte de ver uma borboleta saindo do casulo aqui perto de casa. Fiquei embasbacado, maravilhado com a cena. Ela acabara de sair e exercitava as asas, pronta para o primeiro voo. Não levou nem um minuto. Então, levei um susto: uma língua fina e elástica laçou-a de modo instantâneo…

Era um sapo verde. Estava ali o tempo todo, camuflado. Senti um ódio mortal; o sapo ficou me olhando e sorriu com o mesmo sorriso irônico de um réptil pré-histórico. Senti pena. A coitada passou o ano rastejando para, no momento de inaugurar o voo, não viver sequer um minuto. Muito azar, realmente.

Voltei pra casa desolado.

Texto: Juidson Campos

MEMÓRIAS SUCINTA DE UM ENFERMO

Agora não adianta mais voltar. Na verdade, não há como fazer isso. Somente o tempo de seguir o resto do caminho por ser mais curto. Não estou me lamentando. Estou só relembrando de outrora rotina de farmácias. Começa no café da manhã: quatro comprimidos. À tarde são mais dois. Mantenho os remédios dentro duma caixa de sapatos. Isso lembra minha infância enferma.

Pensando bem, talvez o motivo fosse pelo fato de não poder caminhar. Tinha meu joelho esquerdo inflamado. A perna ficou encolhida, resultado de uma pancada na quina da porta enquanto corria de pega-pega no casarão do meu avô. Fiquei de cama por quase um mês; o tempo corria muito devagar. O médico chegou a cogitar amputação do membro, mas minha mãe não concordou. Intuição de mãe.

Acredito que fiquei um ano em tratamento. Cheguei a juntar mais de dez caixas de sapatos com vidros de antibióticos de várias cores. Minha avó colocava todas as caixas na minha frente para me distrair enquanto cozinhava. Eu brincava de alquimista… Agora estou velho. Não gosto de colecionar nada. Hoje, comprimidos vêm em envelopes laminados e papelão fino. Os vidros se foram.

Aliás, antes da paralisia, eu só gostava de correr pelo pomar e subir em árvores. Não existia TV, muito menos jogos eletrônicos. Hoje, a gurizada passa o dia sentada e correndo virtualmente, nem sentem a luz do sol. Pior que, desse jeito, vão ficar com as pernas fracas como eu.

Texto: Juidson Campos

COM CHUVA OU SEM CHUVA

Preciso caminhar um pouco. Quase não caminho ultimamente. Quem sabe subo a ladeira da minha rua? Não. Melhor pegar a descida. Detesto subir quando recém me levanto da cama. Aliás, para descer, todo santo ajuda. É que continuo me recuperando da cirurgia. Tumor no intestino. Tenho passado muito tempo deitado. O corpo fica mais mole do que o colchão. O livro começa a pesar, cai das mãos. Perco a página e o assunto. É hora de caminhar.

Agora estou diante da porta, indeciso. Pensando bem, melhor eu subir a rua. Se eu descer, ficarei cansado subindo depois. Não quero ajuda de santo nenhum. Droga, parece que vem chuva. O médico disse para não molhar o curativo. O vizinho ligou o rádio. Está trocando as estações. Sinto o cheiro de chuva chegando.

O rádio pula de estação em estação. Música sertaneja. Milonga, que é bom, nada; nem parece que somos mais gaúchos. Agora notícia de assalto. Religião. Não sei se padre ou pastor, o vizinho está de dedos inquietos. Mais sertanejo de novo. Outra estação, o locutor diz: “e a verdade vos libertará…” Espera, não é pastor, não é padre. Meu Deus, é o diabo do presidente!

— Droga, subirei a rua sem guarda-chuva mesmo!

Texto: Juidson Campos

Arte imagem: Lúcia Hiratsuka

1964: O BRASIL ENTRE ARMAS E LIVROS

Serra Pelada por Sebastião Salgado

Fotografia de Sebastião Salgado (Serra Pelada)

Um amigo disse que, se eu assistisse a esse documentário, 1964: O Brasil entre Armas e Livros, eu ficaria chocado com a revelação do movimento comunista atuando no país a ponto de ficar nervoso, indeciso, desconfiado…

— Tudo bem, assistirei por nossa sincera amizade — falei.

Pois bem, assisti. Meu amigo tinha razão: fiquei mesmo chocado. Principalmente quando constatei que a foto do Sebastião Salgado, tirada durante os anos 86–87 em Serra Pelada, estava sendo usada para registrar a guerrilha do Araguaia, ocorrida entre 1967–1974.

Poxa! Fiquei alterado, nervoso! Além disso, sendo diabético, precisei tomar um copo d'água com açúcar porque tive uma súbita hipoglicemia! Sei que somos bons amigos, mas agora fiquei intrigado. Será que ele acreditou nisso, também?

Texto: Juidson Campos