O Soldado e o Ruído
Por Juidson Campos
Em 1945, o soldado brasileiro caminhou sob o inverno das montanhas italianas. Carregava um fuzil e o peso de um país que mal conhecia. O frio tinha dentes, era uma presença física: congelava o metal, mordia os dedos e fazia o tempo parar. Conquistou colinas porque disseram ser necessário. Viu homens morrerem por linhas de trincheiras; não pediu licença ao inimigo, apenas avançou.
Havia honra naquilo. Não a honra dos livros, mas a da sobrevivência e do dever cumprido quando o mundo parecia ter enlouquecido. Quando voltou, trouxe cicatrizes e o silêncio daqueles que viram o fim e sobreviveram.
Hoje, os tempos são outros. O frio não vem das montanhas; o gelo está nos gabinetes acarpetados de quem prefere o calor de um poder tirânico. Não caminham na neve, não passam fome; caminham em corredores de mármore em capitais estrangeiras. Levam o pires na mão para implorar intervenção. Olham para o próprio país como uma propriedade em liquidação. Chamam de diplomacia. Chamam de defesa da democracia.
O soldado, em 1945, dava a vida para que o Brasil não fosse tutelado. O político de hoje entrega a soberania para que ele próprio não seja esquecido pela história. O soldado era feito de carne, medo e coragem. O político é feito de palavras, medo e vaidade. Um conhece o preço do solo; o outro, o preço de um telefonema para quem vive no hemisfério norte.
É curioso: o soldado de ontem lutou para que o país existisse, mas há certos políticos de hoje que lutam para que o país se curve. Ambos são reais. Mas apenas um deles sabe o que significa ser brasileiro, sobretudo quando o sol se punha e o silêncio da trincheira era a única resposta.
O resto é ruído. E o ruído não tem honra.
Nota de Resumo Complementar: Esta crônica estabelece uma dicotomia ética entre o sacrifício histórico dos combatentes brasileiros na Segunda Guerra Mundial e o comportamento de certas lideranças políticas da atualidade. O autor exalta a coragem daqueles que enfrentaram o rigor das batalhas pela soberania nacional, contrastando esse brio com a vaidade contemporânea de quem prioriza interesses particulares e gabinetes luxuosos. A crítica central recai sobre a busca por tutela estrangeira, interpretada como uma fragilidade diplomática que desonra a memória dos soldados. Em última análise, o texto define a verdadeira identidade do país como um compromisso com o dever, tratando a submissão a poderes externos como uma traição ao legado de independência conquistado nas trincheiras.
Compartilhe esta crônica: