O Atestado das Urnas
Amanhã vamos votar para presidente. E, desta vez — preocupem-se —, não se trata de mera panfletagem, mas de uma realidade que exige muito mais do que apenas uma reflexão sóbria: um dos candidatos está envolvido em crimes até o pescoço.
Vejamos o currículo deste senhor:
Em Niterói, uma menina de cinco anos, chamada Ana Clara, brincava na porta de casa quando foi atingida por disparos. O policial militar acusado usava um fuzil e o caso foi mandado para júri popular.
Este mesmo candidato, já eleito senador, interveio no processo e assinou, de próprio punho, um pedido de defesa para atrasar e evitar o julgamento. E conseguiu: os anos se passaram e o acusado continuou sem ir a banco dos réus.
Vale lembrar que, anos antes, na mesma cidade, a juíza Patrícia Acioli mandava policiais envolvidos em crimes para o julgamento popular. Pois bem. Ela foi executada na porta de sua residência com vinte e um tiros.
Enquanto isso, o “nosso candidato” foi à internet publicar que o hábito da juíza de "humilhar" policiais nas sessões havia contribuído para que ela acumulasse inimigos.
O histórico não para por aí:
Ele enviou quase duzentos mil reais em verbas públicas para uma estrutura associada a envolvidos no assassinato da vereadora Marielle Franco.
Destinou, ainda, seiscentos e sessenta e seis mil reais a um instituto de medicina fantasma. Ironia macabra ou não, a entidade figurava em nome de um morador humilde, beneficiário do Bolsa Família, que sequer desconfiava ser o proprietário registrado.
Há, também, a aquisição de coletes para a polícia com suspeita de superfaturamento e um voo de jato particular para os Estados Unidos na companhia de um empresário e de seu advogado — o mesmo que dividia a sala comercial de seu gabinete.
Na véspera do pleito, a história se expõe de forma nua e crua, e os fatos permanecem escancarados diante de nós.
O que nos leva à pergunta central:
Se a biografia do candidato é um catálogo assombroso de barbáries, o que dizer da moralidade de quem o escolhe amanhã nas urnas?
A bússola ética de uma nação é colocada à prova quando o eleitor decide que o endosso ao cinismo, ao crime e à milícia é um preço aceitável para o poder.
Se este homem corre o risco real de ser eleito, o problema já deixou de ser apenas a sociopatia de um político; passou a ser a putrefação da nossa própria consciência coletiva.
Afinal, depositar o futuro nas mãos de quem tripudia sobre cadáveres não é apenas um voto. É um atestado de falência moral de quem aperta a tecla.
Que horror, Deus nos ajude...
© Juidson Campos. Todos os direitos reservados.
Texto de autoria de Juidson Campos. Ilustração gerada via inteligência artificial com direção de arte do autor.
