7 de out. de 2026

A Servidão Neocolonial

A Servidão Neocolonial



Enquanto nos gabinetes atapetados de Brasília a bolha do poder se ocupa com a política identitária e com afagos de bajuladores, no balcão do supermercado a vida real tritura o brasileiro comum.

Com salários que não cobrem as compras até o fim do mês e com a inflação de preços sufocando o cotidiano, a desesperança popular permanece invisível para um governo desconectado da realidade.

Acomodado sobre os louros do passado e focado em pautas distantes do dia a dia, o governo vem ignorando a transformação da sociedade, inclusive com o avanço expressivo de lideranças religiosas atuando diretamente na política.

É nessa brecha de insatisfação que também opera implacável a engrenagem das redes sociais. Guiados pela lógica dos “tecnofeudalistas do Vale do Silício”, os algoritmos passam a priorizar o barulho, o ódio e o rancor em detrimento do pensamento crítico.

Em sua eficaz colonização do subconsciente, parcelas expressivas da população foram manipuladas a depositar seu voto na dinastia do clã Bolsonaro, a maioria iludida pela promessa vazia de uma vida melhor.

É justamente a partir dessa escolha que o erro mais desastroso e aterrorizante se consuma, tal a incapacidade de discernir entre o anseio legítimo por transformação e o ato fatal de entregar a soberania nacional ao "império do caos".

De fato, boa parte do eleitorado brasileiro, infelizmente, não percebe que está abrindo as portas para que fundos globais e o complexo financeiro-militar de Washington transformem o território nacional em pilhagem imperialista.

Não percebe (ou recusa-se a entender?) que as vastas riquezas em petróleo, gás, água e minerais de terras raras passarão a ser entregues sem resistência a um governo vassalo.

Sabendo ou não, a consequência dessa escolha autodestrutiva será o pior feito do nosso século: o país, que antes despontava como um motor do Sul Global e da multipolaridade, agora é reduzido a uma nação secundária, empobrecida e rebaixada mais uma vez.

Sim, porque, sob a ameaça de uma dinastia política que pode se estender por anos ou décadas, o Brasil arrisca-se a produzir a sua própria servidão neocolonial para o restante do século XXI, restando-lhe carregar o peso aterrorizante do desastre que causou a si mesmo.


Acompanhe os contos, crônicas e novidades editoriais de Juidson Campos:

© Juidson Campos. Todos os direitos reservados.

Texto de autoria de Juidson Campos. Ilustração gerada via inteligência artificial com direção de arte do autor.

3 de out. de 2026

.

O Atestado das Urnas



Amanhã vamos votar para presidente. E, desta vez — preocupem-se —, não se trata de mera panfletagem, mas de uma realidade que exige muito mais do que apenas uma reflexão sóbria: um dos candidatos está envolvido em crimes até o pescoço.

Vejamos o currículo deste senhor:

Em Niterói, uma menina de cinco anos, chamada Ana Clara, brincava na porta de casa quando foi atingida por disparos. O policial militar acusado usava um fuzil e o caso foi mandado para júri popular.

Este mesmo candidato, já eleito senador, interveio no processo e assinou, de próprio punho, um pedido de defesa para atrasar e evitar o julgamento. E conseguiu: os anos se passaram e o acusado continuou sem ir a banco dos réus.

Vale lembrar que, anos antes, na mesma cidade, a juíza Patrícia Acioli mandava policiais envolvidos em crimes para o julgamento popular. Pois bem. Ela foi executada na porta de sua residência com vinte e um tiros.

Enquanto isso, o “nosso candidato” foi à internet publicar que o hábito da juíza de "humilhar" policiais nas sessões havia contribuído para que ela acumulasse inimigos.

O histórico não para por aí:

Ele enviou quase duzentos mil reais em verbas públicas para uma estrutura associada a envolvidos no assassinato da vereadora Marielle Franco.

Destinou, ainda, seiscentos e sessenta e seis mil reais a um instituto de medicina fantasma. Ironia macabra ou não, a entidade figurava em nome de um morador humilde, beneficiário do Bolsa Família, que sequer desconfiava ser o proprietário registrado.

Há, também, a aquisição de coletes para a polícia com suspeita de superfaturamento e um voo de jato particular para os Estados Unidos na companhia de um empresário e de seu advogado — o mesmo que dividia a sala comercial de seu gabinete.

Na véspera do pleito, a história se expõe de forma nua e crua, e os fatos permanecem escancarados diante de nós.

O que nos leva à pergunta central:

Se a biografia do candidato é um catálogo assombroso de barbáries, o que dizer da moralidade de quem o escolhe amanhã nas urnas?

A bússola ética de uma nação é colocada à prova quando o eleitor decide que o endosso ao cinismo, ao crime e à milícia é um preço aceitável para o poder.

Se este homem corre o risco real de ser eleito, o problema já deixou de ser apenas a sociopatia de um político; passou a ser a putrefação da nossa própria consciência coletiva.

Afinal, depositar o futuro nas mãos de quem tripudia sobre cadáveres não é apenas um voto. É um atestado de falência moral de quem aperta a tecla.

Que horror, Deus nos ajude...


© Juidson Campos. Todos os direitos reservados.

Texto de autoria de Juidson Campos. Ilustração gerada via inteligência artificial com direção de arte do autor.