O Castelo do Mundo
Por Juidson Campos
O óleo que lambia as pedras da Ilha do Governador não tinha a textura da terra virgem da Sibéria, mas trazia a mesma sombra da morte. Era 1978. Eu era jovem, e o cinema era uma sala escura onde o mundo fazia sentido, mesmo quando o mundo lá fora se dissolvia em resíduos químicos e descaso.
Vi um homem na tela. Era Dersu. Não era um herói de opereta, era um homem que falava com o fogo e com o vento. Ele entendia que a vida era um sopro, uma chama pequena que o mundo, com sua fome de progresso, se encarregava de apagar. Eu não sabia o nome do cineasta; para mim, o filme era apenas a verdade, bruta e sem filtros. Kurosawa era apenas o homem que permitiu que aquela verdade chegasse até mim, embora eu ainda não soubesse pronunciar seu nome.
Anos mais tarde, em uma locadora de fitas VHS — aquele santuário de plástico e ruídos magnéticos —, um colega me entregou Dreams. Vi os sonhos que se tornavam pesadelos, a cor que se convertia em alerta. Entendi, então, que o cinema não era apenas entretenimento; era uma lente que focava o que preferíamos ignorar.
Hoje, observo o tabuleiro. Os senhores da guerra mudaram de figurino. Não usam armaduras que rangem sob o sol, nem dependem da lealdade de filhos que cobiçam o trono. Agora, a guerra é decidida em salas de carpete alto e ar-condicionado, com a temperatura perfeita para o sangue frio. Eles não sujam as mãos de óleo ou lama; apontam para mapas com dedos limpos.
O destino do mundo virou um jogo de mesa entre cavalheiros que não ouvem o choro da terra, nem o grito dos que não têm voz. É o eco de Ran. O velho soberano, em sua soberba, dividiu seu domínio acreditando que a ordem duraria além de sua vontade. O resultado foi o caos: a bandeira queimando no castelo em chamas, o extermínio.
Nós estamos no castelo. A diferença é que, agora, o castelo é o planeta inteiro. Eles observam a tela dos radares, calculando perdas como se fossem estatísticas de uma colheita ruim. Eles não têm a sabedoria de Dersu, que sabia que o homem é apenas um hóspede da natureza. Eles se sentem donos da casa.
Quando a história for escrita — se é que alguém restará para escrevê-la — veremos que nossa tragédia não foi a falta de avisos, mas a nossa incapacidade de ver que, por trás das cortinas fechadas e das negociações frias, o destino de todos nós é apenas combustível para a vaidade de meia dúzia de homens que, como em Ran, estão prontos para ver tudo queimar em nome de um poder que eles nunca, de fato, possuíram.
Para aprofundar a experiência:
- • Dersu Uzala: Assistir filme (legenda em português)
- • Ran (Trailer oficial): Assistir trailer
- • Sonhos (Dreams): Assistir filme (dublado)
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