A Moldura do Fim
Por Juidson Campos
Sei que o tempo parece um oceano sem fim. Mas só parece. Afinal, acordo, faço planos, e o tempo segue com aquela impressão de que a vida nunca vai deixar de existir.
É engano. Existe uma voz silenciosa em volta de mim. Ela viaja como uma sombra invisível, exata, e sussurra suavemente a finitude em meus ouvidos… às vezes nem sobra tempo de ouvir.
Oh, não importa, isso não vai acontecer agora; é muito cedo. Vou me distrair, aproveitar; logo esqueço dessa ideia tão fúnebre. É simples assim. Fingirei que sou imortal.
Sim, é isso mesmo, não importa se é uma ilusão; só preciso não sentir medo, basta olhar para o fim como algo distante, tipo uma peça pregada pela minha imaginação.
Enquanto isso, sinto o vento no rosto, o sol a brilhar sobre o mar e o coração a pulsar. Viver é o que importa, não preciso fugir: a morte ainda está muito longe de mim.
E quando ela finalmente chegar?
Bem, por certo já terei partido, deixando a dor esvaecida, imóvel e dissolvida junto ao corpo que tive. Ora, por que sofrer antes da hora se tal encontro quiçá nunca compreenderei?
Talvez até transforme minha existência em um descanso, o merecido suspiro de um alívio final, num universo, aliás, que caminha para a calmaria do fim eterno de tudo. Igual. Vai se saber?
Só me resta o tempo limitado. Talvez me desapegue daquela sombra onde apenas se copia o que todos fazem. É a urgência do fim, dando-me valor e coragem a cada passo que escolho dar no presente.
Se um dia o universo me parecer um lugar vazio, inventarei o meu próprio sentido. Tentarei ser feliz, mesmo empurrando a minha própria pedra montanha acima, ao menos tentarei fazer da existência a minha obra de arte.
Um desafio que também me sussurra: viva cada paixão, cada amizade de tal forma completa, que se o universo me oferecer repetir a exata mesma vida por toda a eternidade, sorrirei e gritarei que sim… bem, desde que não haja esta tortura sem fim.
Aliás, o grande crime não é perecer, mas viver adiando tudo, como se houvesse o tempo infinito que, na verdade, não tenho. Quando o fim parece real, a ilusão cai e só o importante permanece.
Não pretendo deixar que a sociedade assustada me esconda o manual da minha vida. Devo, portanto, fazer da finitude a moldura do meu próprio quadro de viver.
Ela é o filtro que limpa as futilidades, a linha imaginária que dá sentido à corrida. Saber que a vida acaba é um peso, sim, mas, ao mesmo tempo, é o convite para começar a viver de verdade, afinal ainda estou vivo.