O AZAR DA BORBOLETA

Uma vez li um artigo sobre as borboletas. Passei por cima dos nomes científicos, palavras complicadas de guardar na memória. O que me interessou foi o ciclo de vida em quatro fases: ovo, larva, pupa e imago. Além disso, elas são pré-históricas. Imagine só: elas borboleteavam fragilmente por entre brutamontes dinossauros de alongado pescoço!

Talvez seja por isso que, antes de se tornarem belas, ainda sejam lagartas gordas e feias que passam o dia devorando folhas. Só encerram a atividade após um ano, quando hibernam para a metamorfose. É um processo impressionante, mas considerei injusto o paradoxo: muitas espécies borboleteiam somente por um dia para depois morrerem absurdamente!

Tive a sorte de ver uma borboleta saindo do casulo aqui perto de casa. Fiquei embasbacado, maravilhado com a cena. Ela acabara de sair e exercitava as asas, pronta para o primeiro voo. Não levou nem um minuto. Então, levei um susto: uma língua fina e elástica laçou-a de modo instantâneo…

Era um sapo verde. Estava ali o tempo todo, camuflado. Senti um ódio mortal; o sapo ficou me olhando e sorriu com o mesmo sorriso irônico de um réptil pré-histórico. Senti pena. A coitada passou o ano rastejando para, no momento de inaugurar o voo, não viver sequer um minuto. Muito azar, realmente.

Voltei pra casa desolado.

Texto: Juidson Campos