Tenho falado pouco. Na verdade, muito pouco mesmo, quase nada. Somente "sim" ou somente "não" como resposta direta, pois quem se importa se não há mesmo o que dizer quando não existem sequer ouvidos, sequer palavras, exceto um ar de solidão indiferente, todos compenetrados sobre suas janelas luminosas.
Aqui no metrô, por exemplo, ainda permaneço olhando para o vazio, para o nada, através da minha janela viva, mais real. Estou tentando me acostumar com o que está acontecendo à minha volta. Espiei uma mulher um pouco mais afastada de mim; ela também me observa de relance. Está lendo um livro — uma coisa rara hoje em dia.
Curiosamente, o título do livro é O Resto é Silêncio, de Érico Veríssimo. Coincidência ou não, ando com este pensamento na cabeça. Reconheço: tornamo-nos mariposas de olhos enfeitiçados sobre as janelinhas dos celulares de luzes esplendorosas…
Oh, tudo bem, que se dane! Afinal, quem se importa senão eu ou ela, ali sentada próxima de mim? Ora, ainda estamos desacostumados, deslocados no tempo. Aqui jazemos incrédulos, solitários, continuamos a sós nesse vagão de metrô. O resto é silêncio, nada mais!
Texto: Juidson Campos